segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Caminhos


Para quê, caminhos do mundo,
Me atraís? — Se eu sei bem já
Que voltarei donde parto,
Por qualquer lado que vá. 
Pra quê? — Se a Terra é redonda;
E, sempre, tem de cumprir-se
A sina daquela onda
Que parece vai sumir-se,
Mas que volta, bem mais débil,
Ao meio do lago, onde
A mãe, gota d'água flébil,
Há muito tempo se esconde. 
 Pra quê? — Se a folha viçosa
Na Primavera, feliz,
Amanhã será, gostosa,
Alimento da raiz. 
Pra quê, caminhos do mundo?
Pra quê, andanças sem Fim?
Se todo o sonho profundo
Deste Mundo e do Outro-Mundo,
Não 'stá neles, mas em mim. 


Poema
Francisco Bugalho, in "Paisagem"

Fotografias
Fê Blue Bird
[captadas este fim de semana no Algarve]

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Send in the clowns

Deixem entrar os palhaços !

Tira a máscara palhaço,
deixa a lágrima rolar,
Palhaço do peito de aço
caminha no teu cadafalso
nos lábios o gosto do mar.

Deixa rolar a tristeza
em gotas salobras na face
baixou o pano, certeza,
esquece a tua grandeza
tira da cara o disfarce

Chora palhaço o teu pranto
ninguém há de o perceber
pranteia só, no teu canto,
esconde de todos o espanto
d'o palhaço também sofrer
PALHAÇO DE MIM
Jorge Linhaça



segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Como posso pedir-vos aquilo que não dou.


Quando iniciei este blogue e "libertei" o "passarinho azul", estava longe de prever que passados tantos meses é a Fê que se sente "presa".
Não estou a conseguir dar-vos os minutos que vos peço.
Adoro escrever, adoro aprender e fazer amizades, aqui, tenho tido o privilégio de ter tudo isto.
Mas tenho abdicado de outra parte da minha vida, acho que chegou o momento de eu analisar e rever esta minha aventura, aliás o post anterior já era um reflexo desta minha  decisão.
Não! Não é uma despedida, é simplesmente fazer escolhas mais acertadas e equilibradas.
Iniciei novos projectos,  portanto diminuiu substancialmente o meu tempo nos blogues. Não consigo visitar-vos e comentar-vos como merecem, assim sendo, vou postar aqui mais espaçadamente, para poder  visitar-vos sem pressão, sem pressa, ao ritmo da minha vida.
Os blogues em que eu colaboro vão ser a minha prioridade.
Dos meus quatro blogues pessoais, vou ficar só com este, aos outros vou dar uma pausa merecida neste momento ;)
Espero e sei que me vão compreender.
A todos vós,  a continuação da minha amizade e o meu obrigada.

Fê 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Ohne Dich - Rammstein

"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida. Ninguém, excepto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!"


Nietzsche

Ohne Dich     Rammstein




sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Soneto

@
Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?


Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.


Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.


Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

José Carlos Ary dos Santos
Bom fim de semana

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Banhos mágicos



BANHO PARA MELHORAR A SITUAÇÃO FINANCEIRA

Material:
2 paus de canela
1 molho de salsa
Maneira de preparar:
Derrame água fervente sobre estes dois ingredientes. Deixe em infusão por cerca de 20 minutos.
Decorrido este tempo derrame este líquido sobre seu corpo (do pescoço para baixo), após ter tomado seu banho normalmente. Seque-se naturalmente sem usar toalha.

Aqui encontram banhos para todos os gostos.
 Neste vídeo o chipmunk mostra-nos outra maneira de tomar banho :-)


Bons Banhos!
Beijinhos

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

beijinhos ;-)



A bióloga norte-americana Sheril Kirshenbaum afirma, no seu livro "The Science of Kissing.", que o beijo tem um efeito semelhante no cérebro a uma dose de cocaína:

"A tese não é nova, já que nos últimos anos vários investigadores têm demonstrado que a paixão resulta de um cocktail de químicos semelhantes aos libertados pelo consumo de droga, que actuam nas zonas de gratificação do cérebro.


Helen Fisher, especialista em biologia antropológica da Universidade Rutgers, New Jersey, tem sido uma autora prolífica. Allen Gomes sublinha que, apesar de uma comparação directa entre um beijo e uma dose de cocaína poder ser excessiva, Fisher demonstrou existir uma grande proximidade entre as zonas do cérebro atingidas por uma e outra. "Tem que ver sobretudo com a dopamina e parece ser esta a base para o amor ser uma motivação natural", diz o psiquiatra. "Mas se analisarmos, o ódio também acontece perto do amor e a felicidade perto da raiva."


Kirshenbaum, citada este fim-de-semana pelo jornal espanhol "El País", explicava que o facto de a dopamina disparar durante um beijo apaixonado, como acontece no consumo de cocaína, pode explicar os "pensamentos obsessivos associados a um novo romance". "Faz-nos querer mais e sentimo-nos carregados de energia. Sob o seu efeito, perdemos o apetite, temos dificuldade em dormir e de-senvolvemos comportamentos erráticos." Allen Gomes ajuda a diagnosticar: "Como lhe chamou Fisher, a paixão é uma dependência agradável se for correspondida e privativa se houver rejeição."


Dopamina, ocitocina, adrenalina e serotonina são algumas das substâncias produzidas pelos neurónios já associadas à paixão. Com base em níveis acima da média quando se está apaixonado, muitos tentaram já impor um prazo de validade ao encantamento: seis meses a dois anos. Num artigo publicado recentemente na revista "Bipolar", Allen Gomes rejeita a limitação: "Casais com ligações de mais de 20 anos e que se declaram ainda apaixonados mostram activações cerebrais semelhantes aos casais a viverem os primeiros estádios da paixão. Quer dizer que a paixão não tem de ser necessariamente breve. Breve será, por definição, o turbilhão emocional que a acompanha." Kirshenbaum pede mais investigação nesta área: o grosso das cobaias têm sido "jovens universitários em pleno despertar sexual", disse ao "El País".


No final do ano passado, um estudo publicado por Stephanie Ortigue, da Universidade Syracuse, revelou que a activação destes circuitos numa situação de paixão demora um quinto de segundo. Segundo a investigadora, além da resposta eufórica, a paixão também incide sobre áreas intelectuais, por exemplo as que processam a imagem corporal".


Artigo de Marta F. Reis , publicado no Jornal i. Leia na íntegra AQUI.



BEIJINHOS ;-)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Porque gosta de mim...


Encosta a sua cabecinha no meu ombro e chora...
E conta logo suas mágoas todas para mim 

Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora,
Que não vai embora,
Que não vai embora

Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora,
Que não vai embora,
Porque gosta de mim...

Amor, eu quero o seu carinho, porquê, eu vivo tão sozinho

 Não sei se a saudade fica ou se ela vai embora,
Se ela vai embora,
Se ela vai embora...
 Não sei se a saudade fica ou se ela vai embora,
Se ela vai embora,
Se ela vai embora...

 Encosta a sua cabecinha no meu ombro e chora...
E conta logo suas mágoas todas para mim...

 Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora,
Que não vai embora,
Que não vai embora

 Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora,
No meu ombro chora,

Porque gosta de mim...


Cabecinha No Ombro
Almir Sater
Composição: Paulo Borges





sábado, 12 de fevereiro de 2011

bom fim de semana !


As Bolas de Sabão

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro
Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

Beijinhos

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Amizade e Admiração


Um selo de Qualidade


Recebi com muito orgulho, da amiga  Pedras Nuas do Blogue Os meus ensaios este belo Selo de Qualidade.
Confesso, que embora aprecie e guarde com afecto todas estas manifestações de carinho, nem sempre sigo as regras que muitos indicam.
No entanto como este vem de uma corrente de energia  positiva que eu não quero quebrar { pois todos sabemos que bem precisamos de positivismo } , eu decidi homenagear  TODOS os meus amigos e amigas, porque sem vós este meu blogue não existiria.

Regras:

NOME:   Fê  {a primeira letra do meu nome}

MÚSICA:   Pedra Filosofal  {é  uma constante da minha vida}

HUMOR:  Tenho dias { dias em que sou sol, dias em que sou chuva e ventania }

ESTAÇÃO:  Primavera e Outono { as estações mais suaves e coloridas}

COMO PREFIRO VIAJAR:  De autocarro { para apreciar a paisagem sem a pressão da condução}

COR: A cor dos olhos dos meus filhos { para mim a cor mais linda do mundo}

SERIADOS: Sou fã de séries dos canais FOX e FOXlife 

FRASE: « Ninguém pode fazer com que te sintas inferior sem o teu consentimento » de Eleanor Roosevelt 

O QUE ACHOU DO SELINHO:  Uma forma simples e bonita de brindar à amizade.

AMIGOS 
Espero deste modo manter viva esta corrente, e ao mesmo tempo pedir-vos desculpa,  por nem sempre estar presente nos vossos blogues tanto como gostaria.

Ava Santos
Ana tapadas
Ana Martins
Atena
Avogi
A.C. 
A. Tapadinhas
Aluisio Cavalcante
Antes Prefiro
Acácia Rubra
A.S.
A.João Soares
Brown Eyes
Caminhante 
Carlos Albuquerque
Carlos Barbosa de Oliveira
Clarisse Silva
Castanheira Pera
Celle
Coleccionadora de Silêncios 
Daniel Silva (Lobinho)
Esferografia
FMF
Folha Seca
Fernanda Ná
Fernanda Rocha Mesquita
Flor Alpina
Guidinha Pinto 
Há dias assim
Helga
Hugo Nofx
Insana
Isa GT
Isa
Interioridades 
JPD
Janita
João Meneres 
Joe Father
Joel G Costa
Ju Fuzetto
Laura 
Lida Coelho 
LOL
 Miguel
Mina
Moonlight
Maria
Maria Kiki 
Mar Arável
Manjedoura
Match Point 
Momentos Meus
Observador
Pink Poison
Paula Noguerra
Poetic Girl
Polittikus
Pimp my Portugal
RSM
Rogério Pereira
Rosa Solidão
Relógio de Corda
Reginaldo Morais
Ricardo Calmon 
Rosa Carioca 
Rosinha
Susaninha
Samnio
Sam Seaborn
Teófilo Silva
Teresa
Tite
Vera a fera
Vítor
Kimbanda

Beijinhos a todo(a)s




quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Abel Grade

Lisbon at night
Bruma urbana
Cais do Sodré



“ O tempo não existe para os objectos parados. O tempo não existe para aquilo que não vive. A luz e as sombras são as mãos verdadeiras do tempo. Nos quadros de Abel Grade, o tempo existe. Lento, ou rápido, como a vida.”
José Luís Peixoto - Escritor ( Prémio Saramago)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pequenos prazeres



Saboreia cada gesto, cada toque , cada som, cada momento.
O voo de uma pequena borboleta, o cantar de um pássaro, um gesto de carícia, o cheirinho de um bolo acabado de fazer, o aconchego de um abraço, o conforto de um sorriso.
A vida tem tanto para nos dar 
e quantas vezes nós só o sabemos tarde demais.

Agarra a vida!
Agora!
Já!

Beijinhos

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

" Canção Para Um Povo Triste "

@
canto o povo triste
de quem sou
louco em cantar
para esquecer
os sonhos tidos
na manhã da vida
sol de madrugada
livre no morrer

canto a heroicidade
conformada
de quem chorando
se atreve a cantar
barco perdido
na prisão das ondas
as velas rasgadas
o leme a quebrar

canto a solidão
a ocidente
ligada à terra
que nos viu nascer
a covardia
feita de orações
na doce esperança
de poder morrer


canto o desespero
fatalista
de quem sofrendo
se deixa ficar
olhos cansados
enxada na mão
trabalhando a terra
que lhe vão roubar

canto o meu poema
de revolta
ao povo morto
que não quer gritar
que já são horas para ser feliz
que é chegado o dia do medo acabar.


Beijinhos

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Os esquecidos

@
Em Portugal vi eu já
Em cada casa pandeiro,
e gaita em cada palheiro
e de vinte anos acá
não há i gaita nem gaiteiro...
Cada aldeia dez folias,
cada casa atabaqueiro;
E agora... Jeremias
é nosso tamborileiro.
Só em Barcarena havia
tambor em cada moinho.
E no mais triste ratinho
se enxergava na alegria
que agora não tem caminho.
Se olhardes as cantigas
do prazer acostumado
todas têm som lamentado
carregado de fadigas,
longe do tempo passado.

Auto Triunfo do Inverno
Boa semana
Beijinhos

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Boa viagem !

Walking In The Air

We're walking in the air
We're floating in the moonlit sky
The people far below are sleeping as we fly

I'm holding very tight
I'm riding in the midnight blue
I'm finding I can fly so high above with you

Far across the world
The villages go by like trees
The rivers and the hills
The forests and the streams

Children gaze open mouth
Taken by surprise
Nobody down below believes their eyes

We're surfing in the air
We're swimming in the frozen sky
We're drifting over icy
Mountains floating by

Suddenly swooping low on an ocean deep
Arousing of a mighty monster from its sleep

We're walking in the air
We're floating in the midnight sky
And everyone who sees us greets us as we fly
Bom domingo
Beijinhos

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Quem se lembra desta música?




Gosto de passear pelo you-tube pois descubro sempre qualquer "coisa" que já passou por mim numa ou noutra circunstância da vida. Esta música foi escrita em 1968, por Serge Gainsbourg . É um hino, de índole erótica, à relação que manteve com Brigitte Bardot. No fim da relação Brigitte pediu a Gainsbourg que não gravasse a canção, ao que ele acedeu, mas em 1969 o disco foi gravado por Jane Birkin e Serge Gainsbourg.
Quando o disco foi lançado foi um verdadeiro escândalo. A imprensa internacional atacou a canção, as rádios baniram-na das playlists e o Vaticano emitiu um comunicado condenando-a e considerando-a imoral. Obviamente na altura  beneficiou de uma publicidade gratuita  à escala mundial e ascendeu rapidamente aos tops.
Lembro-me de a ouvir, às escondidas com as minhas colegas no recreio da escola  num velho gravador de cassetes. Quem se lembra desta canção?

Beijinhos e bom fim de semana

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A escolha.

«Não existe testemunha mais terrível - acusador mais poderoso - do que a consciência que habita em nós.»
Autor: Sófocles


Este filme impressionou-me muito. A consciência atormenta esta mulher. É claro que se ela interferisse podia perder a vida, mas deste modo, ao fazer a escolha entre duas glórias, não acabou por se perder também.
Devemos aos jornalistas o (pouco) que sabemos do Mundo, e digo pouco porque o mais belo ou o mais sinistro não é fotografável: a alma, a coragem, a intenção.
Em teatros de guerra só quem os vive, pode revelar grandezas e cobardias, humanidade e crueldade.
Mas nem só na guerra, somos confrontados com situações em que temos que tomar uma decisão.E essa escolha pode ser determinante.


Beijinhos

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

intervalo...hora do banho ;-)


« Não há no mundo melhor tratamento psiquiátrico do que um cachorro lambendo seu o rosto . »
Ben Williams

Gostaram?
Beijinhos

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

ainda a propósito do post de ontem

Esta Gente / Essa Gente


O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente


Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

Queixa das almas jovens censuradas

Foto: Untitled, por Ginger
Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.


Natália Correia (Poetisa portuguesa, 1923-1993)
 



Beijinhos

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Que gente é esta?

Li esta notícia no ViriatoTeles.net., transcrevo-a na íntegra.

«Leio espantado a notícia do Correio da Manhã de hoje: «O director do Conservatório de Música de Coimbra foi espancado sem razão aparente por um grupo de jovens, perto da estação de Coimbra B. Manuel Rocha, 48 anos, ficou ferido com gravidade, fracturando uma perna, e foi com o amigo até às Urgências dos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde está internado.
A cena de pancadaria ocorreu na segunda-feira, às 20h45, quando o músico esperava um amigo na estação ferroviária. Um jovem abordou-o, junto ao seu carro, e pediu--lhe lume para acender um cigarro. Manuel Rocha disse que não tinha, por não fumar, e após troca de palavras começou a ser agredido. A violência aumentou de intensidade quando amigos do agressor, entre eles uma mulher, se juntaram contra Manuel.»
Manuel Rocha, esse mesmo, desde há mais de 30 anos um dos pilares da Brigada Victor Jara, e um dos mais talentosos violinistas deste país. Foi a ele que calhou o miserável episódio, presenciado passivamente por vários transeuntes e utentes da estação ferroviária interurbana de Coimbra, como é relatado pelo próprio e na primeira pessoa:
«Estou vivo e não quero ter medo de ir a Coimbra-B. Queridos amigos! Boletim clínico: fractura do perónio e lesão na articulação da perna direita; escoriações muito ligeiras; sem mais lesões físicas ou morais; sono profundo e descansado.»
E prossegue:
«Descrição da ocorrência: abordagem por marginal à entrada da estação de Coimbra-B; impedimento, pelo dito, de fecho da porta do automóvel; reacção enérgica, minha, à prepotência do marginal; agressão primeira sob a forma de pontapé; reacção enérgica, minha, saindo do carro para desimpedir a via pública (revelando excesso de visionamento de séries norte-americanas nas quais o “bom” ganha sempre); confronto físico de exagerada proximidade; intervenção do resto do bando colocando-me em inferioridade numérica e física seguida de manobra de elemento feminino (demonstrativo de elevado profissionalismo) de inutilização do membro acima referido; pausa para retirar os feridos do campo de batalha (eu).»
Do sucedido, Manuel Rocha sublinha «a atitude demissionária e de assobiar para o ar de quem presenciou a ocorrência», que «não pode ser justificada pelo medo, ou não faria sentido evocar esse pilar da civilização ocidental que é o amor ao próximo.»
O Manel é um homem de bom feitio e melhor humor, o que se saúda. Mas este caso, o seu caso, é sobretudo revelador do estado a que chegou não apenas o país, mas sobretudo o povo que vive nele. Os que na segunda-feira passaram ao largo da agressão ao músico são da mesma massa dos que, na véspera, voltaram a escolher o cinzentismo e a mesquinhez em formato presidencial. Não, não é contra Cavaco que estou. Ele é apenas um mísero professor, coitado, ainda para mais agora forçado a exercer a presidência pro-bono. Não, o que me irrita é mesmo esse «Portugal rançoso, supersticioso e ignorante, que tarda em deixar a indolência preguiçosa» de que fala o Baptista-Bastos. É essa, afinal, a mais triste evidência do episódio de Coimbra-B. A mão que elegeu Cavaco não foi a mesma que agrediu Manuel Rocha. Mas foi, com certeza, a que não se ergueu para o defender.»
Nem preciso de comentar porque está tudo dito!
Beijinhos