quarta-feira, 30 de março de 2011

Ouve, Poeta Romântico

@
Ouve, poeta romântico:
Como queres que compreenda a tua dor de incompreendido
Se nunca deitei fogo aos problemas
Para fugir da terra
Num cavalo de asas de fumo?
Nem nunca pairei sobre os homens
De ouvidos tapados
Para ouvir melhor dentro de mim
As lágrimas das sereias
A insinuarem-me ilhas pessoais
Nos berços aéreos das manhãs de sal?
Como queres que entenda o teu desamparo de herói caído
Se nunca andei pelo céu
Com pés de estrelas…
Nem nunca desci á Terra como tu
Para completar a paisagem com os olhos…
Ou dar aos escravos
- A pobre – carne - de - viver dos escravos! –
A glória de comungar de joelhos
A aristocracia da minha dor
- Do tamanho de uma cidade forrada de pêlo humana
Com ruas calcetadas de olhos tristes?
Não poeta romântico.
Cairia morto de vergonha
Se vagueasse pelo mundo
A enxugar lágrimas de pobres
Com lenços de nuvens.
E desceria à fundura
Da raiz mais oculta dos frios
Se não fosse igual a todos
Menos a mim mesmo.
E cegar-me-ia com unhas
Até ao silêncio das imagens
Se passasse como tu os dias e as noites
A mirar-me ao Espelho
Para ver o meu Esqueleto genial
Dependurado com flores
Entre a Terra e o Céu
Num balouçar de Deus
Que não se Regina às pedras nem às nuvens… 
-Enquanto no Inferno da vida
Os outros esqueletos
Atiram pazadas de carvão
Para as fornalhas das máquinas
Que brincam o fumo
Onde os poetas desenham quimeras de desdém.
Não poeta romântico.
Eu nasci para cumprir outro destino mais novo.
Ser homem apenas sem sangue excepcional
A arder no desejo absurdo
De andar pelas ruas
Vestido de vidro
Para que todos possam ver na minha alma
A dor comum finalmente revelada!
E os sonhos de todos com terra!
E a fome sem estrelas!
E a cólera sem travões!
E a morte sem anjos!
E a revolta sem bandeiras!
E o sol com sol!
Não poeta romântico.
Como queres que compreenda a tua dor de incompreendido
Se só entendo os homens
Quando choram lágrima de terra?
(E nem me entendo a mim?)
-José Gomes Ferreira


Para quem não aprecia poesia e não só ;) 
Apreciem esta jovem da geração "desenrascada".
Afinal, quem é que já não teve vontade de fazer o mesmo ?!




Peço desculpa por não conseguir retribuir as vossas visitas como gostaria,
para de algum modo vos agradecer e demonstrar a minha amizade,
fiz esta pequena e simbólica lembrança para colocarem num cantinho do vosso blogue
se assim o entenderem. 
Beijinhos a todo(a)s
Fê Blue Bird

Create your own banner at mybannermaker.com!




segunda-feira, 28 de março de 2011

Ode à paz !

@
 
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"
Cada vez precisamos mais dela.

domingo, 27 de março de 2011

O Desejo de Ser Diferente

@

O desejo de se ser diferente daquilo que se é, é a maior tragédia com que o destino pode castigar o homem. O desejo de ser outro, diferente daquilo que somos: não pode arder um desejo mais doloroso no coração humano.
Porque não é possível suportar a vida de outra maneira, apenas sabendo que nos conformamos com aquilo que significamos para nós próprios e para o mundo.
Temos de nos conformar com aquilo que somos e de ter consciência, quando nos conformamos, de que em troca dessa sabedoria, não recebemos elogios da vida, não nos põem no peito nenhuma condecoração por sabermos e aceitarmos que somos vaidosos ou egoístas, carecas e barrigudos - não, temos de saber que por nada disso recebemos recompensas, nem louvores. 
Temos de suportar, o segredo é isso. Temos de suportar o nosso carácter, o nosso temperamento, já que os seus defeitos, egoísmos e avidez, não os mudam nem a experiência, nem a compreensão.
Temos de suportar que os nossos desejos não tenham plena repercussão no mundo.
Temos de suportar que as pessoas que amamos, não nos amem, ou que não nos amem como gostaríamos. Temos de suportar a traição e a infidelidade, e o que é mais difícil entre todas as tarefas humanas, temos de suportar a superioridade moral ou intelectual de uma outra pessoa.

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim' 


 

sábado, 26 de março de 2011

A HORA DO PLANETA


Uma hora é pouco para salvar o planeta, mas tem dado nome à iniciativa que pretende aumentar a consciência global em relação à sustentabilidade, e que ganha força e adeptos desde que foi lançada em 2007 em Sidney, na Austrália.
A Earth Hour conseguiu no ano passado um número recorde de envolvimento, com 128 países e territórios a juntaram-se à iniciativa e a desligarem as luzes à hora certa.
O objectivo este ano é mais vasto, marcando as 20.30H de hoje sábado, dia 26 de Março, como o momento de desligar o interruptor, mas querendo ir além desse momento.
No site Beyond the Hour os internautas são convidados a deixar os seus compromissos com a sustentabilidade ambiental que ultrapassem a hora marcada, pedindo-se para que pensem e registem o que podem fazer pelo planeta quando voltarem a ligar as luzes.


Todas as ajudas podem fazer a diferença, porque em conjunto somam muitas pequenas contribuições para tornar o mundo melhor.
Tome uma atitude para tornar o nosso mundo um lugar melhor e partilhe a sua acção com o mundo.


Fonte: tek.sapo.pt


Ponte 25 de Abril, Mosteiro dos Jerónimos, Torre de Belém, Padrão das Descobertas, Castelo de São Jorge, Paços do Concelho, Museu da Electricidade, Centro Cultural de Belém, Cristo-Rei. Esta noite estes monumentos vão desaparecer durante uma hora! Mais de 900 cidades aderiram à Hora do Planeta – Lisboa é uma delas!

sexta-feira, 25 de março de 2011

E ainda a procissão vai no adro…

{© imagem - "Procissão Corpus Christi" de Amadeu de Souza-Cardoso}

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.


António Lopes Ribeiro



Que Deus nos proteja!
Bom fim de semana para todos.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Acabou o tempo !


PEC rejeitado, crise segue em Belém
O Programa de Estabilidade e Crescimento IV (PEC) foi rejeitado esta tarde no Parlamento com os pontos das resoluções do PCP, BE e Verdes de rejeição do PEC a serem aprovados com os votos favoráveis do PSD. O Governo prepara-se para sair de cena, Sócrates prepara-se para falar ao país. 
fonte: notícias sapo

Mais um no desemprego!

Elizabeth Taylor

Elizabeth Taylor morreu aos 79 anos

Imortalizada em filmes como «Cleópatra» e «Gata em Telhado de Zinco Quente», Elizabeth Taylor, uma das mais lendárias actrizes da história do cinema, faleceu hoje de madrugada, de insuficiência cardíaca. fonte: sapo cinema


«Eu sou um exemplo vivo do que as pessoas podem enfrentar e, ainda assim, sobreviver.»


Elizabeth Taylor

A Primavera está a perder muitas flores.

terça-feira, 22 de março de 2011

Artur Agostinho

1920-2011
foto do Record

O Artur Agostinho era daquelas pessoas que eu pensava serem eternas. Provavelmente é, mas de outra forma, pois vai ficar para sempre presente na nossa memória . Pela educação, pelo profissionalismo e simpatia, mas sobretudo, pelo seu desportivismo. O País perdeu um Senhor.
Paz à sua alma.

domingo, 20 de março de 2011

A PRIMAVERA

Quando hoje forem 23 horas e 21 minutos dá-se o Equinócio da primavera no Hemisfério Norte. Assim, despedimo-nos do inverno para dar as boas-vindas à nova estação, que se prolonga até 21 de Junho.

"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la."
Cecilia Meireles


sexta-feira, 18 de março de 2011

Coro dos Caídos


@
Canta bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia


Cantai cantai melancolias serenas
Como o trigo da moda nas verbenas
Cantai cantai guizos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência

Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras

Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora
Letra e música: Zeca Afonso

Nota: Comentário do autor, sobre esta música, in "Cantares":
"Um antigo poema incompleto serviu de base á música. O conjunto constitui como que um complemento dos vampiros entretidos, após a batalha, na recolha dos mais valiosos despojos."
Também publicado no blogue "Sempre Jovens"
Bom fim de semana

segunda-feira, 14 de março de 2011

A Gente não Lê

foto: olhares
Ai Senhor das Furnas
Que escuro vai dentro de nós,
Rezar o terço ao fim da tarde,
Só pr'a espantar a solidão,
E rogar a Deus que nos guarde,
Confiar-lhe o destino na mão.

Que adianta saber as marés,
Os frutos e as sementeiras,
Tratar por tu os ofícios,
Entender o suão e os animais,
Falar o dialecto da terra,
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais.

E do resto entender mal,
Soletrar assinar de cruz,
Não ver os vultos furtivos,
Que nos tramam por trás da luz.

Ai senhor das furnas,
Que escuro vai dentro de nós,
A gente morre logo ao nascer,
Com os olhos rasos de lezíria,
De boca em boca passando o saber,
Com os provérbios que ficam na gíria.

De que nos vale esta pureza,
Sem ler fica-se pederneira,
Agita-se a solidão cá no fundo,
Fica-se sentado à soleira,
A ouvir os ruídos do mundo,
E a entendê-los à nossa maneira.

Carregar a superstição,
De ser pequeno ser ninguém
Mas não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem.
Carlos Tê / Rui Veloso

sábado, 12 de março de 2011

Duzentos mil manifestantes em Lisboa

Protestos excedem expectativas em todo o país

Av. da Liberdade às 14.30
Av.Liberdade às 15.30
Muitos jovens
Muitos protestos
Muitas palavras de ordem
Muita indignação
Muita solidariedade

imagens de Fê Blue Bird
Duzentos mil manifestantes em Lisboa e 80 mil no Porto, segundo o movimento Geração à Rasca. Milhares marcharam noutras cidades do país como Faro e Viseu.«O país precário saiu do armário». Foi uma das palavras de ordem que mobilizou dezenas milhares de pessoas (200 mil, segundo a organização) que participaram no centro de Lisboa no protesto promovido pelo movimento Geração à Rasca.
Uma massa humana quase contínua do Marquês de Pombal aos Restauradores avançou esta tarde para o Rossio para protestar contra a precariedade, o desemprego e a degradação das condições de vida. A manifestação foi convocada pelo movimento Geração à Rasca através da rede social Facebook.
Se no site mais de 60 mil pessoas admitiam participar na acção, o número de manifestantes no centro de Lisboa e em outras cidades do país como o Porto é por agora difícil de quantificar. Perto das 18h da tarde, continuavam a chegar pessoas ao centro de Lisboa. O grosso da manifestação, porém, chegou cerca das 17h ao Rossio, animada pelos Homens da Luta.
A manifestação revelou-se pacífica com a convivência de cidadãos anónimos, figuras públicas e movimentos políticos organizados dos mais diversos quadrantes. À cabeça da marcha, tanto eram visíveis símbolos anarquistas como bandeiras do partido de extrema-direita PNR. Sem registo de incidentes.
«Precariedade não escolhe idade», lia-se numa das faixas. A frase teve correspondência nos muitos rostos visíveis no centro de Lisboa: idosos, jovens, crianças e famílias inteiras.
SOL


EU FUI !
PELOS MEUS FILHOS !
PELO FUTURO !

sexta-feira, 11 de março de 2011

ULTIMATUM


Texto do começo do século passado onde Fernando Pessoa exprime magnificamente a sua vontade de livrar-se dos canalhas políticos não importando quais fossem suas cores, credos ou ideologias.


Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora.

Fora tu, Anatole-France, Epicuro de farmacopeia-homeopática, ténia-Jaurès do Ancien-Régime, salada de Renan-Flaubert em louça do século dezassete, falsificada!
Fora tu, Maurice-Barrès, feminista da Acção, Chateaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio!
Fora tu, Bourget das almas, lamparineiro das partículas alheias, psicólogo de tampa de brasão, reles snob plebeu, sublinhando a régua de lascas os mandamentos da lei da Igreja!
Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade!
Fora! Fora!
Fora tu, George-Bernard-Shaw, vegetariano do paradoxo, charlatão da sinceridade, tumor frio do ibsenismo, arranjista da intelectualidade inesperada, Kilkenny-Cat de ti próprio, Irish-Melody calvinista com letra da Origem-das-Espécies!
Fora tu, H. G. Wells, ideativo de gesso, saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade!
Fora tu, G. K. Chesterton, cristianismo para uso de prestidigitadores, barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialéctica cockney com o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocínios!
Fora tu, Yeats da céltica-bruma à roda de poste sem indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês!
Fora! Fora!
Fora tu, Rapagnetta-Annunzio, banalidade em caracteres gregos, «D. Juan em Pathmos» (solo de trombone)!
E tu, Maeterlinck, fogão do Mistério apagado!
E tu Loti, sopa salgada fria!
E finalmente tu, Rostand-tand-tand-tand-tand-tand-tand-tand!
Fora! Fora! Fora!
E se houver outros que faltem, procurem-nos por aí pra um canto!
Tirem isso tudo da minha frente!
Fora com isso tudo! Fora!
Ai! que fazes tu na celebridade, Guilherme-Segundo da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!
Quem és tu, tu da juba socialista, David-Lloyd-George, bobo de barrete frígio feito de Union Jacks?!
E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga, caída no chão de manteiga para baixo?
E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda Briand-Dato. Boselli da incompetência ante os factos todos os estadistas pão-de-guerra que datam de muito antes da guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados para baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!
Senão querem sair, fiquem e lavem-se.
Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!
Desfile das nações para o meu Desprezo!
Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César!
Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem muita corda senão parte-se!)
Tu, organização britânica, com Kitchener no fundo do mar mesmo desde o princípio da guerra!
(It ’s a long, long way to Tipperary and a jolly sight longer way to Berlin!)
Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristismo e vinagre de nietzschização, colmeia de lata, transbordamento imperialóide de servilismo engatado!
Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque se partiu!
Tu, «imperialismo» espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos!
Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda transatlântica nasal do modernismo inestético!
E tu, Portugal-centavos, resto da Monarquia a apodrecer República, extrema-unção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas naturais em África!
E tu, Brasil, «república irmã», blague de Pedro-Álvares-Cabral, que nem te queria descobrir!
Ponham-me um pano por cima de tudo isso!
Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!
Agora a filosofia é o ter morrido Fouillée!
Agora a arte é o ter ficado Rodin!
Agora a literatura é Barrès significar!
Agora a crítica é haver bestas que não chamam besta ao Bourget!
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
Agora a religião é o catolicismo militante dos taberneiros da fé, o entusiasmo cozinha-francesa dos Maurras de razão-descascada, é a espectaculite dos pragmatistas cristãos, dos intuicionistas católicos, dos ritualistas nirvânicos, angariadores de anúncios para Deus!
Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado de lá!
Sufoco de ter só isto à minha volta!
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas!
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!

BOM FIM DE SEMANA

quarta-feira, 9 de março de 2011

Geração à Rasca - Ousem ir mais além!




Não Temos um Projecto de País
Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. As pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto. Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade.
Aparência, aparência, aparência - e nada por trás!
Onde estão as ideias?
Onde está uma ideia de futuro para Portugal?
Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa?
Os governos todos navegam à vista da costa e parece que ninguém quer pensar nisto, ninguém ousa ir mais além.
José Saramago, in "Entrevista revista Visão, 2003"

No sábado, vamos ousar ir mais além!

terça-feira, 8 de março de 2011

A Mulher Inspiradora

Mulher, não és só obra de Deus;
os homens vão-te criando eternamente
com a formosura dos seus corações,
e os seus anseios
vestiram de glória a tua juventude. 
 
Por ti o poeta vai tecendo
a sua imaginária tela de oiro:
o pintor dá às tuas formas,
dia após dia,
nova imortalidade. 
 
Para te adornar, para te vestir,
para tornar-te mais preciosa,
o mar traz as suas pérolas,
a terra o seu oiro,
sua flor os jardins do Verão. 
 
 
Mulher, és meio mulher,
meio sonho.


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões
fotos retiradas daqui

sexta-feira, 4 de março de 2011

É Carnaval !


O pierrot 
{a "máscara" perfeita para os portugueses}

ilustração de Fernando Vicente

O pierrot ou pierrô é uma personagem tipo de mimo e da Commedia dell'Arte, uma variação Francesa do Pedrolino Italiano.
 O seu caráter é aquele de um palhaço triste, apaixonado pela Colombina, que inevitavelmente lhe parte o coração e o deixa pelo Arlequim.É normalmente representado a usar roupas largas e brancas, por vezes metade pretas, cara branca e uma lágrima desenhada abaixo dos olhos.
A característica principal do seu comportamento é a sua ingenuidade, e é visto como um bobo, sendo sempre o alvo de partidas, mas mesmo assim continua a confiar nas pessoas. Pierrot também é representado como sendo lunático, distante e inconsciente da realidade.
O feminino é pierrete.

Ei você aí, me dá um dinheiro aí
Me dá um dinheiro aí...


Depus a Máscara 

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa



BOM CARNAVAL PARA TODOS!



quarta-feira, 2 de março de 2011

Março com M de Mulher


@
A Importância da Mulher no Progresso da Civilização 
Se na história não procurarmos só uma data ou um facto descarnado, mas tentarmos nela descobrir alguma coisa mais, um princípio harmónico e as leis que governam esses factos, ainda nas suas menores evoluções, veremos que a história da civilização da mulher, do seu desenvolvimento e da sua moralidade, anda sempre ligada aos factos do desenvolvimento da civilização e da moralidade dos povos: veremos que aonde a sua condição se amesquinha, onde desce em dignidade, onde a mulher em vez do triplo e sagrado carácter de amante, esposa e mãe passa a ser escrava sem liberdade nem vontade, só destinada a saciar as paixões brutais dum senhor devasso, aí também veremos descer o nível da civilização e moralidade: à doçura dos costumes suceder a fereza e a brutalidade; e em vez do amor, essa flor do sentimento pura e recatada, só apareceram a paixão instintiva e brutal, necessidade puramente física do animal que obedece à lei da reprodução, à devassidão e à poligamia!

Antero de Quental, in 'Prosas da Época de Coimbra'



A Mulher Mais Bonita do Mundo 

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita. 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro. 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço. 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"