quinta-feira, 27 de outubro de 2011

viagem


 
É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
 É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar, 
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar 
Mais rico de amargura 
Nas pausas da ventura
De me procurar... 

poema de Miguel Torga, in 'Diário XII' 
imagem de Chrissie Cool 


Meus Amigos e Amigas, vou de viagem durante uns dias rumo ao sul.
Fiquem bem!
Beijinhos a todos
Fê Blue Bird

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quem olha para o homem das castanhas?


 Bairro Alto, Lisboa, 1969.
Fotografia de Eduardo Gageiro in Lisboa no Cais da Memória: 1957-1974, p. 73.



Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

 Ary dos Santos

terça-feira, 25 de outubro de 2011

ESCUTA...

queria de ti um país de bondade e de bruma

queria de ti o mar de uma rosa de espuma


Poema de Mário Cesariny
Música de Rodrigo Leão
Fotografia de Rui Borges

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

RSM

Dedico o post de hoje ao meu amigo RSM do blogue "As minhas histórias..."

«Assim vejo a vida (a minha e a dos outros) Aberto de 2ª a 6ª feira. Encerra aos Sábados, Domingos e Feriados ou quando me apetece, afinal eu sou o patrão desta coisa!»

«Apenas em torno de uma mulher que se ama se pode formar uma família.»
Friedrich Schlegel
Clarinha
Catarina
Constança


Os Filhos São Figuras Estremecidas
e, quando dormem, a felicidade
cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes
os lábios, ama-os sobre as camas.

É por mim que chamam quando temem
o eclipse e o temporal.
Trazem nos cabelos
o aroma do leite e da festa das rosas.
Voam-me por entre os dedos,
por entre as malhas da rede de espuma
que lanço a seus pés. 
Reinam num sítio de penumbra 
onde não me atrevo sequer a dizer quem sou.
José Jorge Letria, in "Os Achados da Noite"




 «Tem coisas da gente que não são defeito nem erro: são só jeito da gente ser” :)
Caio Fernando de Abreu

sábado, 22 de outubro de 2011

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro
Nada teu exagera ou exclui
Sê todo em cada coisa
Põe quanto és no mínimo que fazes
Assim, em cada lago a lua toda, brilha
porque alta vive.

Ricardo Reis


Enquanto não chove ;) vejam este vídeo sobre a obra de Fernando Pessoa em 3D, tem só 12 minutos  :) mas vale a pena!
beijinhos

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Chuva para o fim de semana

...A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade
Bom fim de semana!
Beijinhos
Fê blue bird

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O azul é muito importante na vida dos passarinhos.




Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com
árvores e palmeiras nas margens.
E dentro dos quintais das casas que haja
pelo menos goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insectos para os passarinhos.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos.
Porque os passarinhos precisam antes de belos, serem eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach.

Manoel de Barros

Nota: Aqui encho a minha alma de AZUL, imagens e mensagens como as do meu post anterior deixam-me deprimida, eu preciso da beleza como do ar que respiro.
Beijinhos
Fê Blue Bird
Muamar Kadafi-morto

«A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.»

Jean-Paul Sartre

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quando se ajoelha a alma?

"Certos pensamentos são orações. Há momentos em que, qualquer que seja a posição do corpo, a alma está ajoelhada"
Victor Hugo, Os Miseráveis

terça-feira, 18 de outubro de 2011

"Não me peçam razões"


Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.


José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ROSA CARIOCA

Retomando as homenagem aos meus amigos, dedico o post de hoje à minha amiga Rosa Carioca do blogue "Pensamentos e Sentimentos"


Venero a Natureza. Adoro minha Família. Amo minha profissão.

O Teu Olhar
Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"
 
A vida é um campo de urtigas onde a única rosa é o amor.
Victor Hugo
 
 
foto de Rosa Carioca

domingo, 16 de outubro de 2011

Valeu a pena?!




Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. 

Fernando Pessoa
(Foto: Miguel Manso)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

BASTA!!!

http://www.15deoutubro.net/
Há alturas em que não podemos ficar de braços cruzados. Temos que dizer, BASTA!!!
Tinha decidido à um tempo atrás "adormecer" este meu lado contestatário, mas não posso continuar indiferente a tanta injustiça e incompetência.
Nunca tive benefícios para os quais não tenha trabalhado, nunca vivi acima das minhas possibilidades,  nunca fugi aos impostos e às minhas obrigações como cidadã.
Criei dois filhos, facultei-lhes {com sacrifício pessoal e económico} formação na ilusão de que podiam contribuir para o progresso do país, agora tenho que os ver partir para onde lhes reconheçam o valor que aqui desprezam.
Porque tenho que pagar os luxos, a corrupção, as mordomias e a incompetência daqueles que sempre viveram à nossa custa.
Está na hora de lhes mostrarmos a nossa indignação, porque cada vez menos se entende que tanta austeridade só serve para criar mais pobreza, mais desemprego, mais recessão sem que se perspectivem melhorias no futuro.
Na Grécia, apesar da crise o governo compra 400 tanques para se defender do próprio povo. E aqui, o que vão fazer mais contra nós?
Se ainda acreditam que o país pode ser melhor e querem que um dia os vossos filhos possam nele viver, amanhã manifestem a vossa indignação e revolta de todas as maneiras ao vosso alcance.

Não arranjem desculpas. Participem!



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Tempos Sombrios

Orçamento
Função Pública sem subsídios de Férias e Natal até 2013 (DE)


Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura.
Uma fronte sem rugas denota insensibilidade.
Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar.
Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar sobre tantos horrores.
Bertold Brecht 
imagem: google

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"Man is the dream of the dolphin."



"In every color there's the light

In every stone sleeps a crystal

Remember the Shaman when he used to say:

"Man is the dream of the dolphin."

terça-feira, 11 de outubro de 2011

{a viagem}



MINHA ESTRELA
procuro-te nas noites de insónia
entre as nebulosas
a viagem é longa
mas quando te encontrar
não me digas de onde vens
não me mates o desejo
não limites o meu sonho
não arranques o veludo
de que é feita a distância
que existe entre nós...

Texto para a Fábrica de Letras no âmbito do desafio do mês de Outubro "Viagens "


photo by Thomas Zimmer

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Dia Mundial da Saúde Mental


«Cerca de 450 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de um transtorno mental ou de conduta Só a depressão significa viver em média mais de 12 anos com incapacidade. Os especialistas consideram que é fundamental lutar contra a discriminação.»
ler mais aqui



"Borderline".... palavra muito em voga nos debates televisivos e também usada maldosamente como forma de ataque a outrém por algumas pessoas... Que se cuide a ignorância e neste dia se aprenda e respeite o que AQUI se pode ler. Ninguém está livre de isto lhe acontecer.

domingo, 9 de outubro de 2011

ROGÉRIO PEREIRA

O post de hoje é dedicado ao meu amigo Rogério Pereira do blogue
«Assumo hoje parte de mim, a parte Lusitana que é minha alma (já que meu coração é Celta e nas veias me corre sangue Mouro). Serei Viriato, o príncipe, o pastor, o guerreiro. Se fui cantado por Camões, sou por certo homem inteiro. Com meus feitos tremeu o Império Romano. Irão hoje tremer outros impérios igualmente dispostos ao domínio bruto e ao saque. Quando me virem aparecer não precisam tremer nem me prestar vassalagem, serei gentil e positivo na mensagem...»
Da esquerda para a direita: Eu, o Meu Contrário e a Minha Alma


Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer

Como esta pedra cinzenta
Em que me sento e descanso
Como este ribeiro manso
Em serenos sobressaltos
Como estes pinheiros altos
Que em verde e oiro se agitam
Como estas aves que gritam
Em bebedeiras de azul

Eles não sabem que sonho
É vinho, é espuma, é fermento
Bichinho alacre e sedento
De focinho pontiagudo
Em perpétuo moviment
o
Eles não sabem que o sonho
É tela, é cor, é pincel
Base, fuste ou capitel
Arco em ogiva, vitral,
Pináculo de catedral,
Contraponto, sinfonia,
Máscara grega, magia,
Que é retorta de alquimista





Mapa do mundo distante
Rosa dos ventos, infante
Caravela quinhentista
Que é cabo da boa-esperança

Ouro, canela, marfim
Florete de espadachim
Bastidor, passo de dança
Columbina e arlequim

Passarola voadora
Pára-raios, locomotiva
Barco de proa festiva
Alto-forno, geradora

Cisão do átomo, radar
Ultra-som, televisão
Desembarque em foguetão
Na superfície lunar



Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos duma criança

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Bom fim de semana !



Sempre gostei do deserto. Uma pessoa senta-se numa duna. Não vê nada. Não ouve nada.
E, no entanto, há qualquer coisa a brilhar em silêncio.
--Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho


Beijinhos

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Obrigado, excelências.

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha,
sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem.
Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono.
E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo,
pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração
numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça,
a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer,
o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

‘Poema de agradecimento à corja’ Joaquim Pessoa

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

RICARDO CALMON

O homenageado de hoje é o meu amigo Ricardo Calmon do blogue:
«Jovem sexagenário,a graça divina tive , de parido ter sido em Manaus, Amazonas,terra linda e inesquecível, meu berço de girassois ,publicitário,roteirista, produtor e diretor de tv, contundente defensor dos excluídos , portadores de diagnósticos fortes e ou terminais, guerreiro incansável dos portadores de sofrimentos mentais,terrorista quase, actuante contra a pedofilia e os nojentos pedófilos,bestas humanas, tenho como paixão maior escrever, além de viver sempre em função da música, poesia e culto ao ser humano, como persona, sem vínculo com ongs, política ou religião,praticante contundente do amor em igualdade e semelhança.»
“A natureza sempre profundo me tocou, a ela a vida devo, com a água contato, em fechadas matas entrar até hoje, cachoeiras, rios, igarapés, lagos, praias, tudo da natureza seduzia e consolava, sempre refúgio meu foi, da solidão,do medo de porrada levar,do desamor,da tristeza,da depressão infantil aterradora por sofrer sem saber o que foi que fiz,sentimentos que sempre inundaram minha alma,pois parte fazem do meu corpo,de ser meu,da alma minha viva”. (R.C.)
«Ricardo André Calmon nasceu em Manaus, na madrugada de 12 de Novembro de 1946. Sua trajectória ao longo destes quase 63 anos é marcada por lições de amor, coragem e apego à vida, com passagens que vão do lirismo à tragédia.» (leiam o resto da sua incrível história de vida aqui, no BLOGUE do MENSAGEIRO-Heróis Anónimos )

Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.
Charles Chaplin

domingo, 2 de outubro de 2011

Acho tão natural que não se pense...

Hoje, dei por mim a pensar neste poema de Alberto Caeiro.

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer coisa
Que tem que ver com haver gente que pensa...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me coisas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar, tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro
Desejo a todos uma excelente semana.
Beijinhos