quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O APRENDIZ





Ele era um menino
Valente e caprino
Um pequeno infante
Sadio e grimpante
Anos tinha dez
E asas nos pés
Com chumbo e bodoque
Era plic e ploc
O olhar verde gaio
Parecia um raio
Para tangerina
Pião ou menina
Seu corpo moreno
Vivia correndo
Pulava no escuro
Não importa que muro
Saltava de anjo
Melhor que marmanjo
E dava o mergulho
Sem fazer barulho
Em bola de meia
Jogando de meia-direita ou de ponta
Passava da conta
De tanto driblar

Amava era amar
Amava Leonor
Menina de cor
Amava as criadas
Varrendo as escadas
Amava as gurias
Da rua, vadias
Amava suas primas
Com beijos e rimas
Amava suas tias
De peles macias
Amava as artistas
Das cine-revistas
Amava a mulher
A mais não poder
Por isso fazia
Seu grão de poesia
E achava bonita
A palavra escrita
Por isso sofria
De melancolia
Sonhando o poeta
Que quem sabe um dia
Poderia ser

“O poeta aprendiz” (Vinicius de Moraes / Toquinho), com Adriana Partimpim

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Filhos... Filhos? Melhor não tê-los!


Filhos...  Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocó está branco
Cocó está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos?  Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insónia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Vinícius de Morais


Poema enjoadinho de Vinicius de Moraes. Recitado por Paulo Autran - 1990


domingo, 23 de fevereiro de 2014

" Cordas "



" Cordas ", ganhou o Prémio Goya 2014, na categoria de Melhor Curta Metragem de Animação espanhola.
O filme foi inspirado nos filhos do seu criador, Pedro Solís, que tem uma filha muito ligada ao irmão com paralisia cerebral.
Uma história comovente e encantadora que fala de valores e sonhos, cativando-nos desde o primeiro ao último minuto.

Apreciem !

CLIQUEM AQUI

" O Sonho da igualdade só cresce no terreno do respeito pelas diferenças. "
Augusto Cury


Boa semana ! 


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

"não sou melhor mas sou verdade "


Na minha vida tive palmas e fracassos
Fui amargura feita notas e compassos
Aconteceu-me estar no palco atrás do pano
Tive a promessa de um contrato por um ano
A entrevista que era boa não se viu
E o meu futuro foi aquilo que se viu

Na minha vida tive beijos e empurrões
Esqueci a fome num banquete de ilusões
Não entendi a maior parte dos amores
Só percebi que alguns deixaram muitas dores
Fiz as cantigas que afinal ninguém ouviu
E o meu futuro foi aquilo que se viu

Adeus tristeza, até depois
Chamo-te triste por sentir que entre os dois
Não há  mais nada pra fazer ou conversar
Chegou a hora de acabar

Na minha vida fiz viagens de ida e volta
Cantei de tudo por ser um cantor à solta
Devagarinho num couplé pra começar
Com muita força no refrão que é popular
Mas outra vez a triste sorte não sorriu
E o meu futuro foi aquilo que se viu

Na minha vida fui sempre um outro qualquer
Era tão fácil, bastava apenas escolher
Escolher-me a mim, pensei que isso era vaidade
Mas já passou, não sou melhor mas sou verdade
Não ando cá para sofrer mas para viver

E o meu futuro há-de ser o que eu quiser !





Este emocionado relato,  retrata fielmente o estado deste país.
Um país a viver numa ilusão, e um grupo considerável de cidadãos sem memória a viver uma esperança fingida. Estamos cada vez mais pobres, culturalmente e humanamente.
Nunca esta música de Fernando Tordo fez tanto sentido.
João Tordo teve de se despedir do seu pai, que Portugal parece não saber quem é.
Fico feliz por não me incluir nesse grupo. Fico feliz por saber quem é Fernando Tordo!
Desejo-lhe muita sorte para o seu futuro.


Bom fim de semana !



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

TESTAMENTO


 
Montagem com duas imagens mostra o antes e depois de praça em Kiev. A foto editada fez sucesso na web e está sendo compartilhada em redes sociais (Foto: Reprodução/Imgur/ONotkiL)



 TESTAMENTO

Quando eu morrer, sepultem-me
numa colina
Em meio à estepe ampla,
na amada Ucrânia,
para que eu possa ver
Os vastos campos semeados,
O Dniepre, as escarpas
E ouvir como ruidoso, ele ruge!
Quando for levado da Ucrânia
Ao mar azul,
O sangue inimigo...eu tudo deixarei,
Campos, montes...

E até a Deus voarei para rezar.
Mas até então... a Deus desconheço!
Sepultem-me e levantem-se,
Quebrem as algemas
E com o mau sangue inimigo
Reguem a liberdade!
E não deixem de recordar-me
Na grande família,
Na família livre, nova,
Com uma boa,
Suave palavra!





quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Há beijos e BEIJOS

Um beijo que vence o abismo. Ao mínimo toque, levitamos.



Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prémio e meu castigo,
baptismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...

domingo, 16 de fevereiro de 2014

" Ó beleza !

 Onde está a tua verdade? "

 William Shakespeare



A cantora húngara Boggie talvez motivada pelo cansaço da busca excessiva da beleza, lançou este vídeo-clipe que, ao mesmo tempo que entretém, também nos dá uma mensagem social poderosa.
Um vídeo que mente sobre a própria arte de mentir.
Uma coisa é certa, nenhuma imagem (vídeo ou fotográfica) é transmitida ou publicada sem photoshop e isso revela a mentira em que vivemos numa sociedade ávida pelo consumo e pela beleza física… custe o que custar.

Boa Semana!



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Haja o que houver, eu estou aqui .


 
Para mim, uma das mais belas canções de amor.


Haja o que houver
Eu estou aqui
Haja o que houver
espero por ti

Volta no vento ó meu amor
Volta depressa por favor
Há quanto tempo, já esqueci
Porque fiquei, longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor...

Eu sei quem és
pra mim
Haja, o que houver
espero por ti...

Há quanto tempo, já esqueci
Porque fiquei, longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor

Eu sei quem és
pra mim
Haja, o que houver
espero por ti...

Madredeus

Angelika El. 


Bom fim de semana!


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

SOU TUA !

 SOU
TUA PERTENÇA
TEU HAVER
TUA TERRA PERFUMADA
SOU
TEU LIVRO
TEU CIGARRO
TUA SOMBRA A TI COLADA
SOU
TEU TRIGO
TEU SUSTENTO
TUA MÁGOA
TEU TORMENTO
TUA CAMA
TUA CASA
TUA FUGA
TUA ASA 
SOU
TUDO O QUE DE TI VEM
E TUDO O QUE PARA TI VAI
SOU
TEU PRINCÍPIO
TEU FIM
SOU
TEU NÃO
 E SOU
TEU SIM
SOU
 TEU SOL
E TUA LUA
SOU TUA!


Fê blue bird -1983


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Definição do amor


sandra van doorn

Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
altaneiro, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e criminoso;

não ter, fora do bem, centro ou repouso;
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
agastado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

fechar o rosto ao claro desengano,
beber veneno por licor suave,
olvidar o proveito, amar o dano;

acreditar que o céu no inferno cabe,
doar a vida e a alma a um doce engano,
isto é amor, quem o provou bem sabe.

Lope de Vega (1562-1635)
Tradução: David Mourão-Ferreira 


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Desistir ? Nunca !

Aparentemente os cães necessitam tanto de exercício como os humanos.
 Esta bonita cadela pit bull está treinando enquanto o cachorro ‘Bandit’ tenta segui-la.
 Apreciem a sua persistência  ! :)

BOM DOMINGO !

BOA SEMANA !





http://www.peaceloveandpitbulls.org/




sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Eternamente ...

(Source: thisundiscoveredblog)


Poema da Eterna Presença

  Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva,
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,
que as dimensões do infinito não me perturbam.
(O infinito!
Essa incomensurável distância de meio metro
que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!)

O que me perturba é que o todo possa caber na parte,
que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote.

O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas
porque eu não sou braço nem sou perna.

Se eu tivesse a memória das pedras
que logo entram em queda assim que se largam no espaço
sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair;
se eu tivesse a memória da luz
que mal começa, na sua origem, logo se propaga,
sem que nenhuma se esquecesse de propagar;
os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra,
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram
continentes,
a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a
Terra.

Mas não esqueci tudo.
Guardei a memória da treva, do medo espavorido
do homem da caverna
que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz;
guardei a memória da fome;
da fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo;
guardei a memória do amor,
dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras,
que me fez desejar a mulher do próximo e do distante;
guardei a memória do infinito,
daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos,
em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado,
à formação do Universo.

Tudo se passou defronte de partes de mim.
E aqui estou eu feito carne para o demonstrar,
porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.
Já cá estavam.
Estão.
E estarão. 





António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'


Bom Fim de Semana !


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Dai-me um dia branco


Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


Sophia de Mello Breyner Andresen



 Um bálsamo sonoro esta ária.

Beijinho



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Envelhecer em apenas 5 minutos

O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta.
 Então — para que eu não seja engolido pela voracidade
das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — 
eu cultivo um certo tédio. 
Degusto assim cada detestável minuto. 
E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. 
Quero viver muitos minutos num só minuto.

in Um Sopro de Vida



BOA SEMANA !