terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)


Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begónia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

imagens : Pinterest

Poema de Thiago de Mello , poema, dedicado ao escritor Carlos Heitor Conya
Santiago do Chile, Abril de 1964


Amadeu Thiago de Mello, ou simplesmente Thiago de Mello, nascido na rica diversidade da floresta amazónica, na cidade de Barreirinha, em 30 de março de 1926, viajou pelo mundo por opção (foi adido cultural na Bolívia e no Chile) e por imposição (exilado durante a Ditadura Militar).
Ao retornar ao país, foi novamente viver na floresta para se dedicar à preservação e às  comunidades da Amazónia. 
Quando lhe perguntam por que ainda vive lá, ele diz: “Voltei para cá, logo depois de minha chegada do exílio, na Alemanha. Vivo aqui não só para escrever, como também, reparto um pouco da minha vida, da minha esperança, com aqueles seres tão abandonados, esquecidos. Aprendo mais com eles do que eles comigo”.
Há cerca de sessenta anos abandonou o potencial rentável de um curso de medicina para se dedicar integralmente ao difícil e impreciso caminho da arte poética.
Em 1960, no Rio de Janeiro, foi apresentado, por Jorge Amado, a Pablo Neruda. Diz ele, que ao cumprimentá-lo, Neruda recitou dois versos de um poema de sua autoria. Admiração mútua.
No ano seguinte, nomeado Adido Cultural da Embaixada Brasileira no Chile, reencontram-se; gentilmente, como era do feitio do poeta chileno,  convidou-o a morar em sua casa, onde ficou por quatro anos.
Esse exercício de convívio os aproximou. Viajavam, cozinhavam, trocavam ideias, traduziam poemas um do outro. Tornaram-se amigos.
Com Neruda, aprendeu duas importantes lições: do ponto de vista literário “o dever de tornar o idioma poético acessível, sem perder o compromisso com a arte, com o belo”; e, “no plano humano, que a amizade é a mais alta forma de amor”.
Autor de mais de trinta livros editados em diversos países, ele se diz muito satisfeito em viver modestamente de sua palavra escrita e falada e que talvez seja o único de sua geração que esteja vivendo dessa forma.
O seu mais famoso poema, dedicado ao escritor Carlos Heitor Cony (um dos primeiros intelectuais brasileiros a se colocar frontalmente contra o golpe do regime militar através de crónicas reunidas no livro “O Ato e o Fato”), intitulado “Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)”, é reverenciado internacionalmente.
Foi publicado em inúmeros idiomas, percorreu o mundo; tornou-se um lema em favor da liberdade e da dignidade humanas.
Na Índia, foi declamado em híndi, para uma multidão de cem mil pessoas durante o Primeiro Encontro para a Paz naquele país; na ONU foi lido e reproduzido na abertura do livro documental de encontro de pensadores e poetas do mundo todo; foi declamado na abertura dos trabalhos da nossa Assembleia Constituinte (1987), acompanhado pela Orquestra Sinfónica de Brasília, entre tantos outros eventos pelo mundo.
Ao comentar sobre seu poema, o poeta nos diz que o escreveu pensando no seu povo, sobretudo, no destino do homem. Que ele ganhou vida própria, saiu voando por ai e não mais lhe pertence. Que continua mais vivo do que quando o escreveu e mais útil à consciência e ao caminho da esperança de que é possível a construção de uma sociedade humana solidária.
O paradoxo é que essa ode à liberdade, à dignidade e à esperança; reverenciada no mundo inteiro, que se tornou maior que seu próprio criador, tem sua origem justamente quando Thiago de Mello, no Chile, leu o primeiro ato institucional publicado pelo comando do regime militar em 1964 - AI 1 -  que em síntese revogava os direitos políticos e a liberdade de todos os cidadãos brasileiros!

11 comentários:

  1. Prima,adorei principalmente a frase"amar sem amor" como é possivel?
    Eijo explicações, pois que amar é com amor , eu não sei de outra forma, minha prima
    Kis :>}

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  2. Li os artigos que compõem os estatutos do homem, não li a parte da prosa...voltarei oportunamente com mais calma para terminar a leitura.
    Subscrevo os artigos ...o mundo precisa seguir por outro caminho, caso contrário não sei....imagino....sem querer imaginar....
    Beijinhos querida Fê!
    PN

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  3. Muito interessante e útil, a sua postagem de hoje!

    Saudações poéticas!

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  4. Adiro inteiramente a estes estatutos.
    Sem reservas!
    Beijinhos

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  5. Agora não tive tempo de ler todos os artigos que compõem os novos Estatutos Institucionais Permanentes, que vão reger a vida do Homem daqui para a frente, mas como o amigo Pedro Coimbra aderiu e eu confio no seu bom senso, também podes contar com a minha inteira adesão!
    Sobretudo, o Parágrafo Único!! :)

    Beijinhos, amiga Fê!

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  6. Oi Fê
    O estatuto do Thiago é magistral. Quem dera fizéssemos de cada artigo nossa cartilha e nossas verdades. A explanação final está fabulosa
    Beijos

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  7. É bom ter referências, mas é bom que assentamos que a luta pela dignidade é diária, nada surge do acaso.

    Um beijo :)

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  8. Hoy nos has traído a un gran escritor, su poema es toda una utopía maravillosa que nos hace soñar en un mundo mucho mejor.
    Sería fantástico que se hicieran realidad todos los artículos de sus esperanzadores versos.
    Me gusta muchísimo la música que acompaña a tu blog.
    Cariños y buena semana.
    Kasioles

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  9. ~
    ~ ~ Uma postagem excelente e admirável, acompanhada de música sublime.

    ~ ~ Merecia mais tempo para ser admirada. ~ ~

    ~ ~ ~ Abraço amigo. ~ ~ ~
    ~ ~ ~ ~

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  10. Belo momento querida amiga ,paz e amor para todos os coraçoes deste mundo virado tantas vezes do avesso,muitos beijinhos

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  11. Era tão bom que estes estatutos passassem do papel. BJS

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Obrigada por estarem desse lado!
Fê Blue Bird