quinta-feira, 5 de março de 2015

Humor às Quintas :)

O Padrinho e o Arrependido

 



" Doutor, tenho-me comportado como um homossexual , mas estou mil vezes arrependido, o meu maior desejo é casar e ter filhos!" .
O médico ficou espantado e ao mesmo tempo agradecido pela oportunidade que se lhe oferecia. Atendeu o jovem cliente com a maior delicadeza e atenciosa bondade. " O seu caso é curioso e tem para mim o maior interesse.  Pretende casar ? ". " É só nisso que penso Sr Doutor ! ""Já tem noiva? ".
 "Não , duma maneira geral as mulheres deixam-me indiferente , mas sei que existe um tipo de criatura que logo que ela apareça eu serei um homem realizado." 
O médico que era sumidade e pai de filhos, viu ali um caso que "valia a pena". Começou logo a terapêutica ... Uma conversa de homem para homem(?).  Depois de preencher a ficha viu que se tratava do filho dumas das mais ricas famílias do país, que é o nosso... Herdeiro de pais, tios e avós cujos milhões se encontravam espalhados pelo mundo dos mais fortes. O rapaz era encantador e ninguém diria que tinha entrado na vida "às avessas"... Era o tipo de sujeito a que o meu saudoso Erico Braga chamava "os arrependidos" e citava nomes. Alguns ainda vivos e com prol numerosa.
O médico apaixonou-se pelo caso (só pelo caso...) e passou a orientar todos os movimentos do jovem "arrependido" que lhe obedecia encantado.
Esteve uns tempos  sem aparecer. Um dia, foi como se um marciano descesse de pára-quedas e entrasse naquele consultório! O rapaz era outro! Eufórico, parecia um pegador de touros depois de uma pega de caras à primeira tentativa!. "Sr. Doutor, finalmente encontrei a mulher desejada. Estou noivo!".
"E as suas antigas tendências?". " De tudo que passou , Sr. Doutor só resta o arrependimento! Estou apaixonado por uma mulher! Quero que o senhor seja o padrinho, pois já estou a tratar de tudo para que o casamento seja ainda este mês."  
O médico ficou radiante. Uma vitória destas nem o Prof. Barnard, com todos os seus corações em segundo peito...
Depois de tudo organizado, o padrinho foi visitar a futura residência do casal. O que mais o impressionou foi a cama. Linda e larga. Era uma daquelas camas a que os senhores rurais do Alentejo chamavam " cama de casal com menino ao meio". Cabiam lá sete! Só se falava no casamento do ano. Vinha gente de todas as Américas. Banquete para quinhentos convidados! Um desperdício. Cinco mil cravos brancos vieram da Europa por avião, para ornamentar a igreja que estava linda !
A esposa do médico aproveitou a alegria do marido para mandar vir um vestido Christian Dior. Tudo corria pelo melhor.
A noiva entrou no templo pelo braço do pai, que ainda não acreditava na sorte que acabava de lhe bater à porta.! Os convidados sorriam ansiosos pela hora do banquete. O tempo corria e o noivo sem chegar. O padrinho já tossia. A noiva apertava o bouquet. O doutor aconselhou-a : " Minha filha, sorria, porque mais forte que a bomba atómica, capaz de fazer mais estragos, é o sorriso da mulher."
Mas a noiva não sorriu e mais adiante se verá como ela tinha razão.
O padre pensava no belo cozido à espanhola que o esperava para o almoço e já desconfiava do atraso do rapaz. Passava uma hora. O doutor aflito, resolveu o problema:  " Deve ter acontecido qualquer coisa de grave, eu vou lá ver."  E partiu. 
Quando bateu à porta, estava em estado de pânico. A porta abriu-se e o que é que o padrinho vê?
O afilhado envolvido num daqueles "balandraus" árabes, de seda pura, bamboleando mais que negra de escola de samba em terça-feira de Carnaval, no célebre desfile da Av. Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro...
O padrinho dá um grito: " Você ainda está nesse estado e a cerimónia atrasada uma hora?"
"Desculpe Sr. Doutor, mas tive uma recaída !..."

Texto por mim retirado na íntegra do livro de  Beatriz Costa " Mulher sem Fronteiras" de 1981

 "Posso ter idade, mas velha nunca serei! (...) Não sou bonita. Não sou elegante. Mas ainda mando umas brasas por essas ruas fora. Não faço fogo porque não quero. Ainda me fazem cada proposta, deixe que lhe diga... (...) Não sou nada vaidosa. Sou muito simples. É evidente que me preocupo com a minha apresentação. Luxo, é que não. Vivo modestamente. (...) Não tenho inimigos. Nem rancores. Nunca tive ódios. Sou indulgente. Sei perdoar. Sou uma mulher sem fronteiras.(...) Uma mulher só o é quando não tem fronteiras."
Beatriz Costa

18 comentários:

  1. ~
    ~ ~ ~ Gratíssima pela divertida narrativa. ~ ~ ~

    ~ Lamentável a sorte dos 'gays'. O que passaram!
    ~ ~ Tinham de arrepender-se da sua natureza!!

    ~ Era outra Lisboa, a de Beatriz Costa, cujos filmes
    gosto de rever, pois os ambientes correspondem à
    juventude dos meus pais e tios.

    ~ ~ ~ Abraço amigo. ~ ~ ~
    ~~~~~~~~

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  2. Humor legal e e o texto de Beatriz Costa muito bom! Gostei de ver! bjs, chica

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  3. Adorei! A escrita dela é ótima e humor sempre nos faz bem. Aliás, suas colocações a propósito de si mesma merecem aplausos. Bjs.

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  4. Adorei! Leitura muito agradável. Humor sempre nos faz bem. Aliás, as colocações que fez a propósito de si mesma, são louváveis. Bjs.

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  5. Tive o prazer de ouvir essa história da boca da própria Beatriz, mas gostei muito de a recordar aqui, amiga Fê.
    Beijinho

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  6. Uma leitura leve e descontraída. A leitura de um texto humorístico é um bálsamo pela leveza que nos traz.
    O texto da Beatriz é fabuloso
    Um ótimo final de dia
    Beijos

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  7. Amiga Fê, adorei a leitura deste texto! Recordo o lançamento do livro "Quando Os Vascos Eram Santanas" , mas, com grande pena minha, nunca tive oportunidade de o ler.

    O humor desta semana é assim uma espécie de humor com ternura! Felizmente, que a orientação sexual de homens e mulheres de hoje é vista com outros olhos e os preconceitos, lentamente...:(--- vão desaparecendo.
    Sempre admirei muito a grande Mulher que foi Beatriz Costa.
    Lembro-me de uma entrevista que deu onde dizia, precisamente, que não precisava de luxo para viver, mas como não tinha descendentes, não queria ter casa própria e empregados. Vivia num hotel e não tinha de se preocupar com a gestão de habitação.
    Era uma pessoa muito frontal, correcta, mas com um sentido prático da vida incrível.

    Apetece-me dizer, e digo, : Adorei, adorei, adorei!!

    Obrigada, amiga, por nos trazeres a memória das nossas gentes.

    PS. Ando cá a pensar, Fê...foste às compras de livros a algum alfarrabista? :)

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  8. :)) pobre da noiva, espero que tenha fugido e encontrado um noivo melhor e sem recaídas :)
    um beijinho

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  9. ahahah
    Já estava eu aqui, prontinha, para ir à boda :)

    beijinhos

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  10. Runway Groom??? :)))
    Bestial!
    Beijinhos, votos de bfds

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  11. kkk Ri com o texto mas parei por alguns minutos neste trecho da Beatriz: "Sou uma mulher sem fronteiras.(...) Uma mulher só o é quando não tem fronteiras." Parece que ele me cai tão bem no momento...acabei de voltar de um mochilão e me sinto sem fronteiras rs.

    Saudades de ler os blogs de todos, acabei de me mudar pro MS...Tô de volta!

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  12. Boa tarde, Beatriz Costa no seu melhor, qualquer pessoa pode ter uma recaída momentaneamente, acontece aos melhores.
    AG

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  13. Maravilhoso e engraçado momento querida amiga ,muitos beijinhos no coraçao.

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  14. Ai, Fê, não se faz =)
    Tadinha da noiva...
    Essa menina da franjinha, a Beatriz Costa, havia de ser mesmo um terror, não?
    Um bj bem disposto graças à crónica partilhada

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Obrigada por estarem desse lado!
Fê Blue Bird