terça-feira, 21 de abril de 2015

Demoraste a chegar !




Mesmo ao longe já dava para ver que tudo estava mudado, a casa já não era branca, as plantas do jardim estavam secas e retorcidas e na parede da ampla varanda a gaiola estava vazia.
O meu coração acelerava e as pernas tremiam, com dificuldade abri o velho e enferrujado portão e lentamente caminhei até à porta da entrada que se encontrava entreaberta. 
Com a visão turva pelas lágrimas que insistiam em cair, entrei na sala. Tudo estava exactamente como quando parti. 
A velha cristaleira, a mesa ao centro com os retratos de uma família que já não existe e o rádio antigo em torno do qual nos reuníamos para ouvir as radio-novelas e as notícias. 
Tudo coberto por uma camada de pó que o tempo se encarregou de acumular. O silêncio era total, apenas um fio de luz entrava por uma fresta da janela. 
Caminhei vacilante até o quarto e... lá estava ela, deitada na cama com o olhar perdido. Sem olhar para mim, disse com voz fraca:
 -Demoraste a chegar ! 
Nesse momento, o chão faltou-me sob os pés. Ela esperou por mim vinte anos!
Sentei-me ao seu lado, segurei-lhe as mãos trémulas e enrugadas e tive a certeza que não teríamos mais tempo de recuperar as nossas vidas. 
Nesse dia, chorei todas as lágrimas que tinha para chorar. 
Nesse dia, tudo perdi.



25 comentários:

  1. Oi Fê,lendo essa sua postagem,lembrei de mamãe que cuidei até ela ser chamada
    para outra morada.
    Uma mensagem linda,para refletirmos o quanto devemos fazer àqueles que nos amam e não deixá-los esperando até o momento de não haver mais tempo da despedida.
    Muito linda.
    Bjs-Carmen Lúcia.

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  2. Boa tarde, memorias inesquecíveis que marcam para uma vida inteira, falo por experiência própria.
    AG

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  3. São memorias que nos deixam de coração comovido! Amei ler

    Beijinho

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  4. É um belo texto acompanhado de uma linda imagem.

    Continuação de boa semana, Fê :)

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  5. Um texto bonito com uma mensagem tocante. Todos nós passamos por perdas irreparáveis, por momentos de solidão profunda. É a fragilidade da vida humana que nos une uns aos outros. Todos sentimos o mesmo.
    Um beijinho

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  6. Extraordinário momento ,comovente querida amiga ,somos tão frágeis nestes momentos querida amiga ,ás vezes ponho-me a olhar para a minha querida mãe e sinto que um dia a irei perder ,sei que todos partiremos ,mas nunca estarei preparado e confesso que tenho medo desse dia querida amiga ,muitos beijinhos no coração.

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  7. Me emocionei ao te ler! Lindo ,lindo! bjs, chica

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  8. Lindo e emocionante texto.

    Viste este blogue diferente. Obrigada

    Beijuss

    http://quadrasepensamentos.blogspot.pt/


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  9. Essa imagem "disse-te" que escrevesses este belo e triste texto, Fê...

    Também poderia ser um regresso feliz, a um Lar onde as recordações ainda estivessem bem presentes e os momentos felizes pudessem ser retomados...Mas, a vida pode ser mesmo assim: demora-se a chegar e quando se chega já é tarde demais!

    As tuas tentativas literárias são cada vez mais belas e emocionantes, amiga Fê!

    Beijinhos e...até?! :))

    Janita

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  10. Uma imagem, um texto que me provocou um nó na garganta!
    Desculpa, não sei que escrever, a lágrimita cai, sei porquê.

    Beijinho amiga

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  11. ~
    ~ Todos temos memórias de traumas psicológicos inolvidáveis,
    alguns acompanhados de sentimentos de culpa.

    ~ Torna-se necessário racionalizar. Neste caso, sabemos que
    amor de mãe é infinito e incondicional, pelo que, tudo desculpa.

    ~ Uma partilha com amigos desoprime sentimemtos dolorosos.
    ~ Um texto intimista emocionante - confiando e confidenciando.

    ~~~~~~Grande abraço amigo. ~~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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  12. Tarde vem quem nunca chega. Esta frase me acompanhou toda a vida. A ela, com 20 anos de espera, talvez não esperasse mais nada a não ser a tua chegada. Ninguém perde tudo num só dia... sabia?

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  13. Lindo texto, Fê.
    Verdadeiramente emcionante.
    Beijinhos

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  14. Nossa, sensibilizou-me com esse texto! Já é triste a dor da perda e ela se torna ainda maior quando precedida da espera e da ausência. Desejo-lhe uma linda semana. Bjs.

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  15. Oi Fê
    A dor da ausência, a emoção do reencontro e o aperto no peito pela partida que esta prestes acontecer. Um conto com forte teor emocional. Belíssimo e comovente
    Um dia abençoado minha amiga
    Beijos

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  16. De toda perda o nascer de todo ganho em forma de narrativa arrebatadora.
    Cadinho RoCo

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  17. Prima, quem espera sempre alcança. Fizeste-me lembrar a tia-velha que partiu deixando um vazio
    Kis :>)

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  18. Gostei muito do texto, Fê, e das questões subjacentes que a sua leitura encerra. Parabéns!

    Um beijinho :)

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  19. Um texto comovente que emociona e faz pensar,querida Fê.

    Quantas pessoas, neste momento, não esperam ,em lares ou nas suas casas, sozinhos, por familiares que os deixam sem olharem para trás?

    Beijinho amigo.

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  20. Boa tarde Fê, um lindíssimo texto que muito me emocionou!
    Algo semelhante me aconteceu em tempos!
    Distanciamentos muitas vezes impostos, mas o importante é chegar.
    Há instantes que valem por uma vida!
    Um beijinho grande.
    Ailime

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  21. Um texto emocionante e a conter a vida inteira.
    Um beijo, amiga.

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  22. Olá Fê,

    Emocionante e muito bem escrito.
    Para ela, a chegada, ainda que tardia, muito representou.
    Para quem tarde chegou ficou o gosto amargo de momentos irrecuperáveis.

    Você é boa na prosa, hein?

    Beijo.

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  23. Muito triste, muito belo, mas apesar disso esperançoso: tarde, mas chegou a tempo...

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Obrigada por estarem desse lado!
Fê Blue Bird