quarta-feira, 16 de setembro de 2015

{ caderno de capa preta }


John Lautermilch

" Sentada na sala de espera daquele velho hospital, Rosa pegou no seu pequeno caderno de capa preta que sempre a acompanhava, ali, em letras miudinhas e perfeitas, escrevia tudo o que lhe ia alma, os sonhos, as desilusões, os devaneios e ultimamente os medos que a sobressaltavam.
A escrita sempre fora o seu refúgio, a sua companhia e nunca a decepcionara, até hoje !
Por mais que tentasse, nada saía da sua cabeça e as suas mãos tremiam tanto, de medo, de frio, não sabia.
Estava tão cansada, mas porquê pensava, afinal não se lembrava de ter feito alguma coisa para se sentir assim.
Há muitas horas que estava ali à espera mas não se importava, afinal sempre tinha a companhia de outras pessoas e em casa estava sozinha.
Porque será que hoje não consigo escrever, o que aconteceu comigo, onde estou afinal? Dizia para si baixinho.
Ouviu uma voz forte dizendo que tinha chegado a sua vez, Rosa levantou-se insegura deixando para traz o seu pequeno caderno de capa preta. "
{reeditado}
Fê blue bird

 Hier encore



Ainda Ontem
Eu tinha vinte anos
Acariciava o tempo
E brincava de viver
Como se brinca de namorar

E vivia a noite
Sem considerar meus dias
Que escorriam no tempo
Fiz tantos projectos
Que ficaram no ar

Alimentei tantas esperanças
Que bateram asas
Que permaneço perdido
Sem saber aonde ir

Os olhos procurando o céu
Mas, o coração posto na terra

Ainda Ontem
Eu tinha vinte anos
Desperdiçava o tempo
Acreditando que o fazia parar

E para retê-lo e até ultrapassá-lo
Só fiz correr e me esfalfar
Ignorando o passado
Que conduz ao futuro

Precedia da palavra "eu"
Qualquer conversação
E opinava que eu queria o melhor
Por criticar o mundo com desenvoltura

Ainda Ontem
Eu tinha vinte anos
Mas perdi meu tempo
A cometer loucuras

O que não me deixa, no fundo
Nada de realmente concreto
Além de algumas rugas na fronte
E o medo do tédio

Porque meus amores
Morreram antes de existir
Meus amigos partiram
E não mais retornarão

Por minha culpa
Criei o vazio em torno de mim
E gastei minha vida
E meus anos de juventude
Do melhor e do pior
Descartando o melhor

Imobilizei meus sorrisos
E congelei meus choros
Onde estão agora
Meus vinte anos?

Charles Aznavour - Hier encore

17 comentários:

  1. Ah, minha doce amiga Fê, por onde andarão os vinte anos de todos nós... A época dos sonhos, dos devaneios, dos projetos e da busca de realizá-los. Vivi meus 20 anos correndo atrás desses sonhos, mas posso dizer que logrei realizá-los na vida profissional. Na vida pessoal também tive muitas realizações, mas agora, aos 29 anos, o que mais me faria feliz, infelizmente, dois meses atrás se perdeu dos meus braços ansiosos pela maternidade como aquilo que mais me traria a realização como mulher: ser mãe!
    Ah, todos nós temos de uma forma ou outra, o nosso "caderninho preto" onde vamos registrando as emoções que nos assolam a alma.
    Um belo texto onde colocas a Rosa como personagem de um drama tão comum, vivido por pessoas que chegam a uma idade onde somente as recordações conseguem doar algum valor à vida.
    Escolheste bem a pintura para ilustrar teu texto. Uma face que demonstra a passagem do tempo e de alguma forma embeleza o rosto de alguém que conheceu todas as emoções possíveis a um ser humano.
    Fê, deixo meu carinho num beijo no teu coração,
    Helena

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  2. Estou a ler um livro em que um diário tem uma papel fundamental no enredo.
    Este texto fez-me recordar esse livro, O Templo da Meia-noite, de Carlos Ruiz Záfon
    Beijinhos

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  3. Bom dia
    Excelente texto. Parabéns.

    Beijo e um dia feliz

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  4. Maravilhoso Fê!
    E quando a velhice chega é assim que nos sentimos,nos perguntando :
    Onde estão agora os meus vinte anos,tudo parece ter ido embora junto com o tempo que já passou.
    Bjs-Carmen Lúcia.

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  5. Ah, Fê, eu também me pergunto para onde foram estes anos todos! Hier encore...
    Gostei muito do texto, escrito com muita sensibilidade.

    Um beijinho

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  6. ~ ~ ~
    ~~ Há sete anos, aos oitenta e quatro anos,
    Aznavour cantou cantou este tema com as netas...
    ~ Momentos tocantes registados no Youtube,,,

    ~~~~~~~~ Mais uma página perfeita... ~~~~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ~~~ Beijinhos. ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
    ~ ~ ~ ~ ~

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  7. Fê, a espera em um hospital leva embora qualquer inspiração. Quando não se em mais 20 anos, quando a casa é silenciosa e vazia, o coração amarga arrependimentos e alimenta medos. Muito bela sua postagem. Bjs.

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  8. Olá, queria Fê
    Um texto tão bonito vc escreveu... a letra da música é muito propícia para nos fazer pensar sobre o que estamos fazendo com a nossa que nos resta...
    Bjm fraterno

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  9. O tempo que passa incessantemente e que tantas marcas deixa ,belos momentos querida amiga ,muitos beijinhos .

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  10. Amiga Fê,
    Lembro-me bem de ter lido este teu belo e triste texto há um tempo atrás!
    Volto a sentir a mesma comoção que senti naquela altura.

    Um dia chega a hora de deixarmos para trás, tudo o que constituiu a nossa vida...de partir , quando uma voz nos chama e diz que chegou a nossa vez!
    Eu prefiro não pensar nisso...por enquanto!...

    Charles Aznavour, sempre a falar-nos ao coração!

    Amiga Fê, quando tiveres oportunidade gostaria de pedir-te que voltasses ao meu Cantinho.

    Coloquei o mesmo vídeo, mas directamente do Youtube, talvez este consigas visualizar, já que o primeiro carreguei-o do meu pc para o blog e nem sempre resulta.

    Beijinhos muito amigos e sempre solidários, nesta altura em que as saudades já te devem pesar muito...

    Um grande abraço amigo.

    Janita

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  11. As palavras como um refúgio no caderno de capa preta... Belo texto.
    Que bom foi ouvir Charles Aznavour!
    Um beijo, amiga.

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  12. …nada é tão excessivo como esta sombra táctil que nos amargura o coração e, porque é tão excessivo, ainda não se inventaram palavras que definam esse estado de alma
    …sei bem o que sente – o que sinto – no irremediável e efémero desígnio de não sermos nada mais que nada, mesmo quando pensamos
    …é isso: o desígnio de não termos palavras para esse desconforto

    ResponderEliminar
  13. …nada é tão excessivo como esta sombra táctil que nos amargura o coração e, porque é tão excessivo, ainda não se inventaram palavras que definam esse estado de alma
    …sei bem o que sente – o que sinto – no irremediável e efémero desígnio de não sermos nada mais que nada, mesmo quando pensamos
    …é isso: o desígnio de não termos palavras para esse desconforto

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  14. Nem sempre é fácil encontrar as palavras certas para expressar o que queremos dizer.

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  15. Querida Fê : Palavras para descrever o que se sente na hora da ultima viagem deve ser muito difícil, quando penso que esse momento pode estar perto sinto medo do desconhecido e ansiedade por não ter feito tudo que planejei na vida até hoje.
    Mas, como o fim é inevitável, o melhor é deleitar-me com seus belos textos e com a musica do Aznavour.
    beijinhos, Léah

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  16. Excelente texto e é sempre um prazer ouvir a musica desse grande Senhor da musica francesa Aznavour.
    Um abraço e continuação de uma boa se,mana.

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Obrigada por estarem desse lado!
Fê Blue Bird