sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Tempo de Castanhas


ilustração de Isabella Ahmadzadeh

No Outono os dias vão ficando mais pequenos, as folhas caiem formando um manto castanho, o vento sopra com mais intensidade e o frio espalha-se entre nós.
E quanto mais frio está mais somos convidados a comprar as castanhas quentinhas que sorriem para nós com a sua boca aberta num pedido de que as provemos.
Recordações de quando era pequena, pela mão dos meus pais, aguardava impaciente, a minha vez de adquirir um pacote de castanhas.
Lembranças do tempo da escola em que corríamos para ver quem conseguia chegar primeiro e ter as castanhas mais quentinhas. Lembro-me daquele grupo de crianças à nossa volta, olhar de súplica de quem não podia comprar castanhas. E havia sempre partilha, uma a uma íamos distribuindo as nossas castanhas. O sorriso agradecido das crianças era suficiente para nos compensar.

Lisboa 1966


 Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

Ary dos Santos


Lisboa, Praça D. Pedro V, 1907
 fotos retiradas daqui

~~ * ~~ 
As castanhas possuem um delicioso sabor, consistentes como uma batata e são perfeitas para os meses mais frios, feriados ou como petisco para um dia qualquer. Embora tostar ou assar as castanhas sejam os métodos mais comuns, também podem cozê-las, assá-las no forno ou prepará-las no micro-ondas.  Vejam aqui algumas dicas muito simples e deliciosas.



Reza a lenda que, num dia tempestuoso ia São Martinho, valoroso soldado romano, montado no seu cavalo, quando viu um mendigo quase nu, tremendo de frio, que lhe estendia a mão suplicante...
S. Martinho não hesitou: parou o cavalo, poisou a sua mão carinhosamente na do pobre e, em seguida, com a espada cortou ao meio a sua capa de militar, dando metade ao mendigo.
Apesar de mal agasalhado e sob chuva intensa, preparava-se para continuar o seu caminho, cheio de felicidade. Mas, subitamente, a tempestade desfez-se, o céu ficou límpido e um sol de Estio inundou a terra de luz e calor. Diz-se que Deus, para que não se apagasse da memória dos homens o acto de bondade praticado pelo Santo, todos os anos, nessa mesma época, cessa por alguns dias o tempo frio e o céu e a terra sorriem com a bênção dum sol quente e miraculoso. É o chamado Verão de São Martinho!
O costume do Magusto, que tradicionalmente começava no Dia de Todos-os-Santos, é simultaneamente uma comemoração da chegada do Outono e um ritual de origem religiosa: o dia do Santo Bispo de Tours (São Martinho) está historicamente associado à abertura e prova do vinho que foi feito em Setembro. O água pé é o resultado da água lançada sobre o bagaço da uva, donde se retirava o pouco de mosto que aí se mantinha. Esta bebida pode ser consumida em plena fermentação ou, depois disso, adicionando-lhe álcool. Assim, diz o ditado popular "no dia de S. Martinho vai à adega e prova o vinho". No fundo, com o São Martinho e o Magusto comemora-se a proximidade da época natalícia, e mais uma vez, a sabedoria popular é esclarecedora: "dos Santos até ao Natal, é um saltinho de pardal!"

29 comentários:

  1. Oi Fê,aqui no Brasil só vemos as castanhas no mês de Dezembro por comemorarmos as festas natalinas.
    Eu também gosto muito.
    Bjs,obrigada pela visita e um ótimo final de semana.
    Carmen Lúcia.

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  2. Eu gosto muito de castanhas. Cozidas, assadas, no forno ou até como acompanhamento. Assadas no forno juntamente com carne de porco ficam muito saborosas. Só ainda não provei sopa de castanha que dizem que é muito saborosa.
    Adorei os versos do Ary!

    Um beijinho, Fê :)

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  3. Adoro castanhas. Cosidas, assadas e até cruas.
    Assim como gosto, muito, do trabalho do Ary.
    Beijinho com votos de um bom fim de semana, Fê.

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  4. Boa tarde Fê.
    Duas lindas historias, a primeira o relato da generosidade das crianças ao dividir a sua castanha, e a outra do São Martinho que cortou o seu próprio vestimento para da a quem sentia frio. Eu como castanha com freqüência pelo benefícios que possui, evita avc etc. Um lindo final de semana. Abraços.

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  5. Querida Amiga Lindos relatos sobre as castanhas e o dia de S.Martinho.
    Como minha mãe era espanhola, adquirimos o costume de comer castanhas feitas de várias formas, mas a maneira que mais gosto é cozinhá-las com erva-doce e sal, mas esse alimento aqui é só na época de Natal e Ano Novo.
    Gostei muito desta postagem, linda.
    beijinhos, Léah

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  6. Bela postagenns
    Castanhas não aprecio nada

    Bom fim de semana, beijo
    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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  7. Querida amiga ai que saudades você me trouxe do tempo da escola e da terra dos meus pais onde adorava o cheiro da castanha assada especialmente quando era com caruma ,um cheiro e sabor intenso que ainda hoje me lembro ,muitos beijinhos no coração querida amiga

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  8. Uma bela postagem com saudosismo.
    Lindo os meninos que podem sensibilizarem com os menos favorecidos e assim cada um recriar um pacote para eles.
    Tradições e historia em poesia bem descritiva.
    Beleza de partilha.
    Carinhoso abraço amiga e beijo paz num feliz fim de semana com castanhas e muito amor no coração.

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  9. Querida Fê
    Um comovente relato das crianças que se sensibilizavam com a miserabilidade dos seus co-irmãos e partilhavam com eles as suas castanhas
    O soberbo poema do Ary enfatiza a vivência triste do vendedor de castanhas e a lenda de São Martinho nos faz ver o quão perto estamos dos festejos natalícios. Uma partilha maravilhosa essa sua postagem amiga
    Um lindo e abençoado final de semana
    Beijos

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  10. Um belo trabalho e esta é a altura das boas castanhas assadas.
    Um abraço e bom fim de semana.

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  11. Fê,
    Um post delicioso, à imagem das castanhas. E se elas, assadinhas, são boas!

    Um bom final de semana :)

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  12. Fez uma rica postagem, como o são as castanhas. Boas lembranças, a marcar a infância. O poema é de um autor que muito admiro. Final de ano, as castanhas começam a aparecer, encantando as comemorações do Natal. Bjs.

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  13. Amiga Fê,

    Com uma bonita recordação da tua infância, o belo poema de Ary dos Santos que tanto gosto de ouvir cantado pelo Carlos do Carmo, as interessantes fotos do século passado e a imagem ternurenta, brindaste-nos com uma bela publicação alusiva ao Outono e às deliciosas castanhas assadas.
    Adorei! Lindo, como sempre.
    Um beijinho grande e reconfortante, como o são as castanhas quentes e boas! :)

    Janita

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    Respostas
    1. E não é que só agora reparei no vídeo onde apresenta 3 maneiras de se puderem comer belas castanhas?
      A primeira em que vão ao micro-ondas com a tigela de água ao lado, achei a mais simples e prática! Já vou experimentar. Primeiro tenho de comprar as castanhas.

      Beijinhos e obrigada, Amiga. :)

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  14. «Eu nasci dentro de um berço,
    que ninguém tocar ousava,
    aquele que lhe mexia
    a pôr a mão não tornava.
    Nas cidades, vilas e hortas,
    quando me apanham crescida,
    as mulheres ociosas
    comigo ganham a vida.
    Tiram-me o fato, ando nua,
    na velhice ao tempo exposta,
    quanto mais encarquilhada
    mais a gente de mim gosta."

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  15. Quentes e boas quentinhas , a estalarem na brasa, quem compra leva mais calor para casa.
    Já começa a rrefecer, sabe as castanhas e lareira acesa.
    Gosto delas assadas.
    Já aprendi novas maneiras, foi fazer a experiência ao sal ;
    beijinhos e boa semana

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  16. Olá Fê,

    Suas memórias reacenderam as minhas. Lembrei-me das castanhas preparadas pela minha mãe, normalmente cozidas ou assadas. Gosto muito, mas confesso que nunca a preparei. Se fosse fazê-lo, optaria pela dica do microondas. Mais fácil e rápida-rsrs.
    A lenda veio lembrar-me que o Natal já está batendo à porta. Como o tempo voa!
    Gostei de ler o poema, que não conhecia.

    Como sempre,uma postagem de tirar o chapéu.

    Beijo.

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  17. Adoro castanhas, de todas as maneiras. Este ano ainda não as provei:(

    Todos os anos conto a lenda de S. Martinho aos meus alunos e sempre costumamos fazer um magusto nesse dia. Vamos ver se o tempo este ano ajudará...

    Um beijinho:)

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  18. Durante esse tempo afastada dos blogs
    senti muitas saudades de todos que
    de alguma forma não deixou por um só dia meu blog sem nenhum comentário.
    Agradeço de todo coração pela fidelidade isso não tem preço
    uma amizade sem questionamento linda e silenciosa
    num carinho de apertar o coração.
    Hoje agradeço pelo apoio no silêncio das horas e dos tempos.
    Uma semana na paz e na luz de Jesus.
    Foi triste meu afastamento
    marcado por perdas e lagrimas doloridas,
    mas Deus nos da um dia recolhe para sua verdadeira Pátria.
    Um beijo carinhoso saudades sem Fim.
    Eva..
    Fe amo castanhas mas o preço que chega aqui no Brasil poucos podem comprar já era difícil e a desvalorização da nossa moeda nos deixou só na castanha de cajú do nordeste do Brasil.
    Eu compro nem q seja meio quilo só pra ñ ficar em branco.

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  19. Já estão à venda ali no Largo do Senado também.
    Beijinhos, boa semana

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  20. Olá Fê
    Estamos no tempo delas...:-))
    Bonitas memórias de infancia onde eu re revejo.
    Adorei o Texto e o poema
    Um beijinho grande
    Teresa

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  21. MARAVILHOSA POSTAGEM.
    Já apetece umas castanhas.


    Visite-nos... poema do Gil António...aqui:- http://quadrasepensamentos.blogspot.pt/ ... Obrigada beijinhos

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  22. eu gosto de castanhas de qualquer maneira.
    gostei desta postagem.
    um beijo
    :)

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  23. Que beleza, minha amiga!
    Gosto tanto de castanhas...de qualquer maneira.

    Beijinho

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  24. O poema de Ary dos Santos é tão doce e triste...um bom homem, este, que em sua pobreza anda por toda a cidade distribuindo calor e doçura. Não é preciso ser um santo para assim fazê-lo...mesmo as crianças, em sua ingenuidade, vão por aí a distribuir castanhas e ensaiar bondade.
    Linda e cativante a sua postagem!
    Abraços,
    Bíndi e Ghost

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  25. Interessantes, os versoa, gloriosa a fografia do vendedor de castanhas!
    Saudações poéticas!

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  26. Uma memória linda, também pela partilha - fiquei com vontade de comer castanhas :)
    Já conhecia a história de S. Martinho, mas não a do água pé :), nem o poema. Obrigada
    um beijinho
    Gábi

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  27. Uma memória linda, também pela partilha - fiquei com vontade de comer castanhas :)
    Já conhecia a história de S. Martinho, mas não a do água pé :), nem o poema. Obrigada
    um beijinho
    Gábi

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  28. Uma memória linda, também pela partilha - fiquei com vontade de comer castanhas :)
    Já conhecia a história de S. Martinho, mas não a do água pé :), nem o poema. Obrigada
    um beijinho
    Gábi

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Obrigada por estarem desse lado!
Fê Blue Bird