domingo, 27 de novembro de 2016

"Existem duas maneiras de nos refugiarmos das misérias da vida: música e gatos” *

* escreveu Albert Schweitzer e eu acrescento mais duas, 
pintura e poesia.
pintura minha (Outubro 2016) óleo sobre tela -  2 telas sobrepostas de 30x60 cm


Cantiga Felina

Eu sou uma gata gatona gatinha
pequena ladina
feroz e feliz e felina.
Eu sou uma gata que come
fanecas e figos
Feijão e favona e favinha
e…
comigo ninguém faz farinha!
Eu sou uma gata gatona gatinha
faceira furtiva
fadista fiel e festiva.
Eu sou uma gata que foge
da fúria do fogo
fanhosa felpuda fininha
e…
comigo ninguém faz farinha!
Eu sou uma gata gatona gatinha
uma bela figura
que fala que funga e que fura.
Eu sou uma gata que veste
um fatinho forrado
com fita fivela e fitinha
e…
comigo ninguém faz farinha!


 photo 677-Boasemana.gif

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Palavras e palavras.


@

há palavras doces que saboreamos delicadamente
 há palavras venenosas que nos ferem lentamente
  há palavras que nos tocam como chuva, tão delicadas e finas
 há palavras que nos amarram e nos torturam, assassinas
há palavras meigas, ternas, que nos dão prazer
há palavras rudes, cruéis que preferimos esquecer
há palavras que nos libertam
  há palavras que nos calam

.

Fê blue bird 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

FUI PEDIR AO MAR...



fotos minhas - 17/11/2016

*


O mar dos meus olhos

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

I'm ready, my Lord

21 de setembro de 1934,
10 de novembro de 2016,
Leonard Cohen, cantor canadiano e compositor de canções como "Suzanne" e "Hallelujah", morreu ontem aos 82 anos. A causa da morte não foi revelada, mas ele já dava indícios de que não estava bem de saúde. Perdeu-se um dos mais venerados visionários da música. 
Dono de um característico timbre seco e voz rouca, que foi ficando mais grave com o passar dos anos, Cohen lançou em Outubro último o disco "You Want It Darker". Nele, já fazia intensas reflexões metafísicas sobre a morte. 
A relação com Deus, amplamente abordada pelo cantor desde os anos de 1980, veio como uma carta de despedida, após a morte, em Julho, de sua musa Marianne Ihlen, aos 81 anos. Nessa época, numa entrevista à revista "New Yorker", declarou: "Estou pronto para morrer. Espero que não seja muito desconfortável". 
Nascido em Westmount, no Quebec em 21 de Setembro de 1934, Leonard Norman Cohen só passou a se dedicar à música depois dos 30 anos, quando se mudou para os Estados Unidos. Antes disso, ele já era conhecido como autor de romances e livros de poesia, mas, frustrado com as poucas vendas, decidiu explorar a composição musical. 
Em 2001, Cohen recebeu o prémio Príncipe de Astúrias de Literatura. Também foi candidato ao Prémio Príncipe de Astúrias das Artes, lançou livros de poesias como "Flores para Hitler" (1964), "Belos Vencidos" (1966) e "Comparemos Mitologias" (1956), além de obras em prosa, como o romance "O Jogo Favorito" (1963).
Na música, lançou 14 discos de estúdio entre 1967 e 2016. Cohen despontou durante as décadas de 1960 e 1970 junto a uma geração de poetas-compositores, como Bob Dylan, Paul Simon e Judy Collins. No seu círculo de amizades estavam frequentemente nomes como Andy Warhol, Jimi Hendrix e Janis Joplin.

*

You Want It Darker

If you are the dealer, I'm out of the game
If you are the healer, it means I'm broken and lame
If Thine is the glory, then mine must be the shame
You want it darker
We kill the flame

Magnified, sanctified, be Thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the help that never came
You want it darker

Hineni, Hineni
I'm ready, my Lord

There's a lover in the story, but the story's still the same
There's a lullaby for suffering and a paradox to blame
But it's written in the scriptures and it's not some idle claim
You want it darker
We kill the flame

They're lining up the prisoners and the guards are taking aim
I struggle with some demons, they were middle class and tame
I didn't know I had permission to murder and to maim
You want it darker

Hineni, Hineni
I'm ready, my Lord

Magnified, sanctified, be Thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the love that never came
You want it darker
We kill the flame

If you are the dealer, let me out of the game
If you are the healer, I'm broken and lame
If thine is the glory, mine must be the shame
You want it darker

Hineni, Hineni
Hineni, Hineni
I'm ready, my Lord

(Hineni)
(Hineni, Hineni)
(Hineni)


TRADUÇÃO

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Fantástica Animação Brasileira Mostra Impacto Humano na Vida Selvagem


“Dream” (Sonho) é uma fantástica animação, produzida pelo estúdio brasileiro Zombie, que mostra o impacto humano na vida selvagem de uma forma emocionante, diria até terrífica, incapaz de deixar alguém indiferente.
Em três brilhantes minutos, vários animais da savana, do Árctico ou dos oceanos, cantam a música “I Dreamed a Dream” do musical Os Miseráveis — enquanto a sua vida é transformada de um cenário idílico para um tormentoso sofrimento com a chegada do ser-humano a cada uma das suas vidas.
O filme termina de forma dramática, já fora do ecrã, e deixa-nos a pensar que a pior parte é ser tudo, tudo verdade.
Este belíssimo trabalho demorou 5 meses a ser produzido, por 40 profissionais, e será exibido especialmente num festival de filmes sobre a vida selvagem, o Wildlife Conservation Film Festival (WCFF). Merece ser visto, revisto e sobretudo divulgado.

Apreciem:



P.S. Já agora, se quiserem conhecer a letra completa da música, em inglês e português, consultem aqui . Não deixa de ser incrível como a letra parece ter sido escrita de propósito para os animais.

fonte:mundo dos animais


~~*~~

sábado, 5 de novembro de 2016

Digam lá se não são divertidas ?

Quando se fala em fotografias do mundo animal, geralmente pensamos em fotos de tirar o fôlego, sérias e solenes. Mas e quando o animal não sai bem na foto?
É exactamente disso que se trata o Comedy Wildlife Photography Awards, um prémio anual que escolhe as fotografias mais engraçadas de animais.
Todas as fotos precisam ser de animais selvagens (esquece aquela selfie com o teu gatinho), mas, fora isso, qualquer pessoa pode participar – mesmo que seja um fotógrafo amador. O vencedor é aquele que, “segundo os juízes, combinar a melhor excelência técnica com o melhor conteúdo”.
A competição anunciou os seus 23 finalistas: são fotos hilariantes de esquilos com a boca cheia, sapos tranquilões e zebras risonhas.
Separei algumas – mas se quiserem continuar a diversão, podem ver todos os finalistas no site do prémio e também ficar por dentro dos vencedores do ano passado.

Esta foi a tua melhor anedota !
Mano, vamos dar um passeio.
Vá lá despachem-se não tenho o dia todo!
És mesmo parvo não entendes nada !
Whaaaaat????
Onde é que começa um e acaba outro ?
Deixa-me ver o que está lá dentro...
Sim. Eu admito... A culpa é minha...
Sim, segue em frente !

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

DESAFiO SUPERADO!

Meus Amigo(a)s, em primeiro lugar quero vos agradecer pela preciosa colaboração que deram a este meu "Desafio ao Domingo ".
Este tema daria um debate muito interessante, mas não tenho neste meu humilde espaço essa pretensão, até porque é um assunto demasiado sério e pessoal.
A maioria dos comentários foi a favor da gravidez,  poucos se abstiveram e quem comentou a favor da interrupção apresentou também argumentos bem fundamentados.
Aproveito para publicar o final que lhe dei quando fiz este pequeno texto.
O meu bem-haja a todos!

~~*~~


DECISÃO 
@

"Bateu ao de leve na porta de um edifício antigo numa rua discreta da cidade.
Uma mulher sem idade definida abriu-lhe a porta perguntando-lhe o nome, mandou-a entrar e com um gesto indicou-lhe uma cadeira num corredor comprido e escuro.
Sentiu a presença de outras mulheres mas não as olhou, nem lhes falou.
Enquanto esperava pela "sua vez" pensava se estava ou não a tomar a decisão certa. Era jovem, solteira, com o curso ainda a meio e tantos sonhos por cumprir. 
Pensava também na mãe, que nem imaginava que ela estava a passar por tudo aquilo. No namorado não pensava e no filho não queria pensar.
Finalmente chamaram-na.
Entrou num quarto quase despido de mobília onde estava uma mulher vestida de branco, uma maca, uma mesa com uns quantos instrumentos, que ela preferiu não ver, uma bacia e uma cadeira.
Hesitou por um momento e tomou a decisão de...



Lá nessa sala, viu, percebeu a frieza do ambiente. Tinha algo dentro de si que ainda que nem quisesse pensar, já lhe dava um calor ao coração, bem diferente daquilo tudo ali. Deu um último olhar, um suspiro e resolveu abandonar tudo aquilo.A mãe poderia lhe ajudar a criar aquele bebê que esperava... 
... não ir em frente com tamanha culpa que lhe iria atormentar o coração para o resto da vida, sua expressão no seu rosto justificava tal acto, seu coração irradiava uma paz indefinível, que a fez seguir em frente enfrentado cada adversidade, pois sabia que a partir desse momento por mais difícil que fosse sabia que dentro do seu ventre nascia um ser que já era muito amado .

Sim ela esperava um bebê, e estava ali decidida em fazer um aborto, pois sua situação não era a das melhores e não poderia ter essa criança. Mas...a consciência foi mais forte e arrependida sai sem deixar que alguém pudesse vê-la e começa a pensar em revelar a sua mãe dessa gravidez e pedir ajuda a ela psicologicamente para poder levar até o término do nascimento,e ajudá-la no que fosse preciso.
Sabia que sua mãe não negaria esse pedido e aí...

... sair daquele lugar e enfrentar com coragem e determinação o que iria fazer de seguida!

... nada fazer. Durante o tempo de espera não se lhe saia da cabeça aquela frase tantas vezes ouvida "ó mulher, tudo se cria" e outra "onde comem dois, comem três", mas na frase que mais pensou foi numa que lhe segredou a própria alma e esta lhe dizia: "que não seja por egoísmo da tua própria carreira"...

Quatro anos passados vinha o filho com a irmã pela mão e apontava à mãe o arranhão "Ela caiu, mas só fez esta feridita", "o mano é que me agarrou, com muita fooooorça!", completou a pequenita.
Ia ela a dar-lhes abraços, quando recebeu uma mensagem. Era o Carlos:
"Vamos almoçar? Traz os miúdos!"

... seguir em frente. Despiu-se e quando se preparava para se deitar na maca, sentiu um arrepio gelado na coluna. Era como se alguém lhe passasse uma pedra de gelo do pescoço para baixo. Foi como se acordasse dum transe. De repente tudo lhe pareceu demasiado sórdido e o seu único desejo foi fugir dali. Vestiu-se atabalhoadamente, os olhos rasos de água, o coração apertado. Todos os seus argumentos anteriores que a tinham levado até ali,lhe pareciam egoístas e sem razão de ser.
Na rua, respirou fundo. Estranhamente sentia-se mais leve, mais ligeira, como se tivesse feito as pazes com a vida. Passou a mão pelo ventre, numa leve carícia e murmurou:
"Perdoa-me filho"

... pedir desculpa à senhora da bata branca, pelo incómodo e pela desistência do que haviam previamente combinado.
Saiu para a rua e respirou fundo. Aquele ser que sentia já a crescer no seu ventre, fruto de um amor (in)consequente, iria nascer e ver a luz do dia. Não poderia carregar com o peso desse crime, pelo resto da sua vida. Nem ela nem ninguém, tal sorte merecia.
Era jovem, o curso haveria de ser terminado e, como havia lido algures, já nem se lembrava onde:
"Há sempre lugar para mais um"...

... desistir. Levantou-se de supetão, surpreendendo a mulher de branco, tropeçou na mesa com os instrumentos levando-os a cair ao chão, com um grande estrondo, que abafou o som dos seus passos quando correu para a porta. Passou pelas mulheres que esperavam ainda a correr, abriu o trinco da porta da entrada e veio para a rua. Só ali lhe pareceu que conseguia voltar a respirar. Não queria que a rasgassem para lhe tirarem o filho que nem sequer ainda sentia. Pela primeira vez pensou nessa vida que o seu corpo era capaz de nutrir, formar e proteger. "Meu filho. Talvez tenha de abdicar de ti para continuar com a vida que quero ter, mas não vou tirar-te a tua vida. Pelo menos isso, farei por ti". Tinha andado sem rumo e viu-se num largo com um pequeno jardim. Encontrou um banco no qual se sentou por momentos. Deixou-se ficar lá para recuperar a respiração e arranjar novos planos. Iria contar à mãe e ao namorado e seguiria com a gravidez até ao final.

...  não concretizar o que pensara, afinal, é uma vida que teria o direito de nascer, que seria um crime impedir, apesar de ter sofrido aquele estupro. Nem seu namorado, nem sua família sabiam. Como contar? Acreditariam? E seu namorado?
Mas nada pesaria tanto quanto tirar a vida do 'Ser' que acolhia. Decidiu-se pela vida, pela verdade, pelo filho que amaria acima de tudo.
Saiu do quarto não mais apavorada, mas segura de seu bravo ato, não importando suas consequências.

...não interromper a gravidez o ter o filho que gerava no ventre.

Resolveu assumir e proteger o filho de tudo e de todos,como uma leoa, custasse o que custasse...

... sair dali, e entregar-se ao seu destino, foi um erro que a levou aquela situação e um erro não se conserta com outro. Pensou nas palavras de sua mãe,"nada neste mundo é de graça, o maior prazer, a maior alegria, a comida mais gostosa, tudo tem um preço, ou pagas na hora ou se prepare para os juros, o melhor é procurar não errar, se errou conserte e acerte". Saiu da sala e hoje tem uma linda menina para alegrar seus dias...

... assumir a sua maternidade, mesmo com as dificuldades e contrariedades que isso lhe traria no imediato; a certeza que o SEU bebé lhe iria dar muita felicidade. Pediu desculpas e saiu para a Vida.

... a medo deitou-se na marquesa, o coração parecia querer saltar-lhe do peito, respirava ofegante, passou suavemente as mãos pela barriga e imaginou a alegria que seria aquele ser pequenino um dia chamar-lhe mãe, ao mesmo tempo a lucidez dizia-lhe que não iria ter coragem para contar aos pais, ao namorado o que se passava e naquele momento não tinha condições financeiras para criar aquele filho.
De repente o coração falou mais alto que a razão. Deu um pulo, vestiu-se à pressa e partiu.
Já cá fora sentiu uma brisa leve afagar-lhe o rosto e soube naquele momento que tinha tomado a melhor atitude.
Pensou que o que naquela altura tudo parecia trágico, mas a vida dá muitas voltas e acreditou que os milagres acontecem.

... retroceder, trêmula, os passos. Saiu aos prantos em direção a um lugar para ermo, silencioso, no qual pudesse estar consigo mesma, pedindo força e coragem para tocar a sua vida com mais determinação para cuidar do filho que estava ganhando peso no seu útero. Antes, passou por uma delegacia para denunciar a clínica clandestina.

... não prosseguir após fazer uma viagem rápidas por tudo que já havia passado na vida.Decidiu contar tudo para seus pais e assumiria independente do namorado. Naquele instante era ela e o mundo, despediu-se e bateu a porta atrás de si.

... sair dali e gritar . Gritar muito e revelar sua solidão. Solidão de preconceitos e de atitudes. De fazer algo clandestino e de arriscar a vida .
Esse grito ecoaria. Alguém ouviria? Estaria só realmente? Ou a abraçariam e a trariam para o aconchego da casa dando apoio moral e financeiro. O curso poderia esperar mais um tempo. Talvez a vida tomasse outro rumo . Talvez , tudo talvez . Naquele momento estava só, mas responsável por seus atos.
Levantou, rapidamente. Vestiu a roupa, pegou a bolsa e pagou a conta. Seus últimos centavos.
Lá fora, respirou e a cada lufada de ar, sentiu-se livre e ao mesmo tempo atada.
A responsabilidade estava ao seu lado. Comprimindo-a e ao mesmo tempo dando oportunidade de escolhas. A escolha de viver. A escolha que outra vida estava a depender.

Que decisão tomar? De repente, chegado o grande momento, as certezas ruíram, qual edifício sem sustentação. Que fazia ali? Que estava a fazer? O peso da decisão era demasiado, as certezas eram nada. De repente, como que querendo afastar para lá de si toda a trama, saiu do quarto a correr, sem saber para onde. Por dentro dos escombros das ideias feitas, apenas intuía, isso sim, que qualquer decisão de vida não podia ser decidida num qualquer quarto obscuro.

Voltou a pensar na mãe. Uma enorme vertigem percorreu-lhe o corpo. Em seus olhos começou a nascer um rio onde se sentiu tão náufraga, tão órfã, tão solitária que esqueceu os pensamentos perversos. Saiu daquele lugar vagarosamente com a certeza de ter voltado a nascer. Nunca mais seria a mesma pessoa... 



Há decisões que o não são. Só o contacto com a aridez e assepsia de ideias a vontade nasce no cerne se ser livre. Ela percebeu-o no derradeiro instante. E caminhou adiante.

Ana Freire
Tomou a mesma decisão que tantas outras mulheres foram obrigadas a tomar, naquele lugar...
Sabia que não poderia sobrecarregar os pais... que tinham ainda outros filhos menores a seu cargo... lutando com imensas dificuldades diárias, e recorrendo a vários empregos incertos... e que não poderia contar com mais ninguém, senão com ela mesma...
Poderia dar vida ao seu filho... mas certamente não lhe poderia dar qualidade de vida...
E a vida, é isto!... É feita de escolhas... e de saber conviver no dia a dia, com elas...
Todas as acções têm consequências... e ela estaria, ali naquele lugar... que jamais esqueceria... a aprender, da forma mais dura, o quanto a vida é muitas vezes injusta e sem contemplações... simplesmente... uns têm bons suportes familiares, que têm a capacidade de ampararem alguns dos seus membros, em situações de vida, mais aflitivas... outros não!... Tão simples, quanto isto!...
Respirou fundo!... A sua decisão... a vida, e as suas circunstâncias, haviam tomado por ela...


...parar!
Os sentimentos revolviam-lhe as entranhas, enchiam-na de pavor!
E se...?
Num impulso, pediu desculpa e saiu enquanto as lágrimas lhe corriam pelo rosto. A decisão ultima, sabia, teria de ser sua...
...mas o era inteiramente!
Ainda havia algum tempo...


.. interromper a gravidez acidental e não desejada!



Não...
Não quero ouvir os gritos perdidos escorrendo sangue no branco sujo das paredes...
Recuso-me a pensar, a ver ... Ou a tentar perceber a dor do final que apenas sobrou para aquela mãe...



Não tenho o direito de criticar quem se sujeita a um aborto, como em tudo na vida, nem sempre se pode decidir "por nós" aquilo que a vida nos"dita".
Eu queria muito ter filhos, não os tive, há mulheres que ficam grávidas e não podem deixar avançar a gravidez, mas pelo que me têm contado quem o fez isso lhes provoca um grande sofrimento que se mantém ao longo da vida.

Nem preciso de tentar dar uma continuidade quando todos os que já por aqui passaram disseram o que eu diria! :)
Mas isto é "romance"... é ficção... é fácil escolher a VIDA!
A todas elas um forte abraço!

Lembra-se que lhe colocaram uma espécie de máscara. Lembra-se de ouvir um som, como se fosse uma  torneira a pingar. Lembra-se do pavor que sentiu. Mais nada!
Vestiu-se. Saiu sem  olhar para trás. Jurou a si própria que  aquela cena nunca mais se repetiria.
Não ficou  estéril. Não morreu. Mas nunca esqueceu!
 ~~*~~

Agradeço também aos amigos:


 


Termino colocando na íntegra o comentário de uma querida amiga, que por ser médica e portanto viver esta situação na primeira pessoa, deu um testemunho muito valioso.



Fê, minha querida, achei simplesmente genial a tua postagem. O pedido aos teus leitores/amigos para completarem a tua história foi um dos mais bonitos gestos de compartilhamento.
Li todos os comentários e suas finalizações, e achei todos muito bem elaborados.
Vou me eximir de completar a história, prefiro te falar sobre casos verídicos que ao longo destes anos me fizeram conviver com pacientes que viveram tal experiência e que tomaram decisões baseadas na coragem, no amor ao filho, e desistiram no último momento, mesmo sabendo das dificuldades que teriam de enfrentar. Outras pacientes que chegavam na clínica muitas vezes com um serviço mal feito, sofrendo infecções.
Foram 8 casos que presenciei ao longo dos anos. Todas as pacientes me procuraram para contar sobre os problemas que enfrentariam, pais severos, namorado fugindo da responsabilidade, a carreira (ou estudos) que ficaria prejudicada e outros problemas mais.
As oito pacientes, sabendo que a nossa clínica nunca aceitaria interromper uma gravidez, pediam-me orientação para uma clínica que se propusesse a isto. Eu nunca faria uma indicação destas, e assim tentava de todas as formas demovê-las da ideia.
Destas 8, apenas 5 eu consegui fazer com que desistissem de tal procedimento. E as crianças nasceram saudáveis, lindas, e hoje fazem parte dos meus abençoados 26 afilhados, e vieram para encher de alegria famílias inteiras.
Das outras 3 pacientes só fui ter notícia novamente quando do falecimento de uma, mercê de um procedimento mal feito que motivou o fechamento da clínica, ou melhor, do açougue, como a imprensa assim chamou. As outras duas continuam hoje como minhas pacientes, sendo que ambas se casaram e cada uma é mãe de duas meninas lindas. Cada uma das mamães me deu a primeira filha para batizar.
E assim, minha linda Fê, vou construindo minha história de vida, tentando exercer a minha profissão da melhor maneira possível. Ainda mais que no momento é a minha única fonte de satisfação, quando ajudo a trazer ao mundo mais um pequenino ser de Deus.
Grata, meu anjo, pela oportunidade de me externar dessa forma, contando um pouco das minhas experiências.
Que as horas dos teus dias cheguem plenas de alegria e paz.

~~*~~