segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Pois bem!


Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
fui eu que t’as cedi num dote de princesa.
e para te ensinar a ser correcto já,
coloquei-te na mão a xícara de chá…


E se for um francês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
de ter sido cigarra antes da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei
Antes de Montgolfier, um século! Voei
E do teu Imperador as águias vitoriosas
fui eu que as depenei primeiro, e ás gloriosas
o Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
por essa Espanha acima, até casa a coxear


E se um Yankee for que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Quando um dia arribei à orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa.
Olhava para mim o vermelho doutor,
— eu era então o João Fernandes Labrador…
E o rumo que seguiste a caminho da guerra
Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.


Se for um Alemão que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
Tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói, afinal é um tenor…
Siguefredos hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.


Se for um Japonês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!
Sou eu que num baixel levo a Europa á tua ilha!
Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda
foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.


Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
Vejo no firmamento as estrelas de Deus,
e penso que não são oceanos, continentes,
as pérolas em monte e os diamantes ardentes,
que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:


— São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
extasiado fixou pela primeira vez…
Estrelas coroai meu sonho Português!


P.S.
 A um Espanhol, claro está, nunca direi: — Pois bem!
Não concebo sequer que me olhe com desdém.

Por Afonso Lopes Vieira
1878-1946 


Acho que não é preciso mais palavras! Pois bem!

5 comentários:

  1. Já fomos tão grandes... em que atalho nos perdemos?

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  2. Pois bem... acho que foi muito bem lembrado este post.

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  3. Como já alguém disse, "o poder corrompe". Talvez o mal fosse termos sido grandes demais! Espicaçou-se a ganância que se foi transmitindo, e alastrando a sectores vitais. Actualmente parece-me tudo contaminado... Vivemos num emaranhado cada vez mais complexo de sucessivas crises, de onde não vejo forma de sairmos. Já nem me parece que haja o minímo de vergonha e todos são inocentes!

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  4. Minha querida
    Lindo post.
    Faço minhas as palavras da Susana:
    Em que atalho nos perdemos...

    Beijinhos
    Sonhadora

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  5. Acho que nos perdemos à sombra de glórias e conquistas passadas.
    Que é feito da nossa coragem e valentia, da nossa procura por algo maior?
    Não encontro mais resposta!

    Um beijinho a todos que fazem o favor de estar sempre presentes por aqui.

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