domingo, 8 de julho de 2012

DOMINGO !


Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar…
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»…

Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.

Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!

Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina…

Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe a sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!

E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
— porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!
 Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.

Partindo deste principio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!

Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores…

Penso isto, e vou a grandes passadas…
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia.
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz…

Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
— ao sol como num ritual consagrado a um deus! —
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida…

Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!

E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura…

O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.

A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos…
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bem feito
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.

Hoje encontramo-nos aí pelos cafés…
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos.
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
— rapaz, traz-me um café…

O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
— Olha, quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol…
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:

— …. no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água…
… um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou…

O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?…

O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!

Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou…
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes…
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó…
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!

Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!

Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!

Manuel da Fonseca 

BOM DOMINGO!
Beijinhos

18 comentários:

  1. Soberba postagem, Fê!
    Obrigado.

    Beijo :)

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  2. Magnifica postagem ,que cada domingo seja sempre aproveitado ao maximo ,que cada momento seja cheio de felicidade com todos que amamos ,pois pode ser sempre o ultimo pois nada nesta vida e certo porque desperdiça-la .Beijo

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  3. Minha nossa... levanto, fico em pé, e aplaudo! estou extasiada com tamanha beleza...! um dos poemas mais lindos que já li... não tenho duvidas...

    Me angustia e me entristece, ao mesmo tempo que me leva ao êxtase dos sentimentos, como sempre o fazem as belas poesias...

    Obrigada, Fe, por este momento de tamanha beleza na vida...

    Beijos com muito carinho

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  4. Ando sempe a aprender com os amigos da blogosfera.

    Lindas as palavras de Manuel a Fonseca ditas por Mário Viegas (que saudades!!!!).

    Pena que estes Domingos na maioria fossem tristes como estão sendo os Domingos de muita gente no nosso Portugal actual.

    Desejo-te um otimo Domingo mesmo que alguns assuntos possam entristecer-nos.

    Este post está lindo, especialmente porque está encimado de uma foto com a passagem do tempo espectacular.

    beijosssss

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  5. Mesmo a caminho do final da tarde, desejo-te um bom domingo.

    Beijinhos.

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  6. É também
    Pelo poema dito
    e pelo poeta que o deixou escrito
    Que dedico
    meus domingos a Homilias
    É para para desassossegar
    É para que não se repitam tão tristes dias

    (numa outra altura qualquer
    venho-lhe roubar a imagem...
    lhe direi, quando tal o fizer)

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  7. Um dos nossos melhores poetas declamado por uma das nossas melhores vozes. A ironia que nos mostra tantas e tantas realidade.
    Uma boa escolha para um Domingo, mas que em todos os dias pode ser lida.
    Um beijo e obrigado por este Domingo.
    Rodrigo

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  8. que momento bonito!

    bom recordar!

    e bom domingo!

    beij

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  9. A força de ser e sentir... sempre.

    Um beijinho, querida Fê!

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  10. Lindo e reflexivo poema Fê!
    Um grande bj e bom final de domingo.

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  11. Grande Manuel da Fonseca, que tive o gosto de ouvir ao vivo!

    Bons sonhos, amiga.

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  12. Fê,
    o cuidado que colocas nas tuas edições é brilhante!
    Adorei.

    Beijinho e tem uma boa semana.

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  13. Prima Fê

    Espero que tenha passado um excelente domingo, com esta magnifica apresentação:-)

    Beijinhos

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  14. Olá Fê,

    Coisas Belas... Todos os dias um tanto delas, e as preocupações afastam-se dos nossos corações.

    Beijinhos, Boa semana.
    Clarisse Silva

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  15. Olá Fê,
    Bonito poema que é mais que um poema. Dizem muito. Bonitas palavras que são mais que simples palavras.
    Como alguém disse em cima, os Domingos hoje em dia já não são, para muitos, os dias alegres e bem passados de antes. Mas vão servindo para muita coisa coisa como se pode apreciar. E eu desejo que todos os dias, não só no Domingo que vem, possas fazer as coisas mais belas que tu desejes....

    Beijinhos

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  16. Terrível este poema, não é? Fica-se doente ao lê-lo! Meu querido Manuel da Fonseca!

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  17. Dedico o Domingo a saborear o bom que a vida me deu. Nada me pode saber melhor. Beijinhos

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