domingo, 28 de fevereiro de 2021

Talvez...

foto minha- Parque da Paz-Almada

*

talvez
esteja nos pensamentos
que germinam no meu cérebro
talvez
 me esconda na boca
que disfarça sorrisos
talvez
 me refugie nos olhos
cansados de não dormir
talvez
procure nos braços caídos
um abraço fechado
talvez
fuja para dentro do coração
e fique aí escondida
talvez
vá demorar um tempo
a me encontrar

.

Fê blue bird




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Esconde-me...


esconde-me... 
 como se eu fosse a rosa mais rara do teu jardim
 retira os espinhos que me nasceram na alma 
 abre trilhos de ternura na raiz 
e deita fios de água na seiva desordenada.

 depois...
 ao desfolhares as minha pétalas
 pelo tempo já gastas e desbotadas
 guarda-as na caixa dos sonhos
 como se fossem preciosas pérolas, de lágrimas.


Fê blue bird


~~*~~
 poema de 2012, 
reeditado com alterações 


 Pablo Alborán - Solamente Tú

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O BANHO


Saltou da cama sobressaltada.
Rapidamente começou a despir a blusa. Abriu o fecho da saia deixando-a cair no tapete. 
Na boca seca, sentia um gosto enjoativo e amargo e um cheiro, misto de devassidão e desespero, estava impregnado no seu corpo dorido. 
O que seria passado ontem à noite , só se lembrava de estar exausta, aliás, nem sabia como tinha chegado a casa .
Tirou os collants rasgados, atirando-os para cima da cadeira ao lado da escrivaninha desarrumada e aberta.
 Dirigiu-se para a casa de banho com passo incerto.
Abriu as torneiras do duche, enquanto desapertava o soutien que colocou em cima do banquinho de madeira. 
Fechou a porta e contemplou-se no espelho alto, não por narcisismo, mas num processo que só ela conhecia de se tranquilizar a si própria.
Viu marcas negras nas coxas e de imediato sentiu um calafrio.
- Que diabo, como fiz isto ?
Entrou na banheira protegendo-se com as cortinas.
Meteu a cabeça debaixo da água morna.
Abandonou-se àquele prazer, aquele silêncio calmo e reparador.

 Passou-lhe despercebido o barulho da porta a abrir...


Fê blue bird



~~*~~
“Existe algo mais importante que a lógica: a Imaginação.
 Se a ideia é boa, jogue a lógica pela janela.” 

ALFRED HITCHCOCK


The Shower - Psycho (5/12) Movie CLIP (1960) 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A VISITA


Há mais de duas décadas que me visita regularmente.

Insistente, maldosa, aparece sem ser convidada e ao fim de pouco tempo, instala-se determinada.

Às vezes ainda consigo antecipar a sua vinda e, ela aborrecida por eu não lhe prestar atenção, acaba por ir embora. Mas na maioria das vezes, sou apanhada sem hipótese de fuga. 

Ao princípio, revoltava-me, chorava e suplicava para me deixar,  mas ela não se comovia, fazia ainda pior, eram dias e noites de perfeita agonia.

-O que será que a faz aparecer sem avisar ? 

-Será o cheiro da comida que a atrai, será por causa do tempo que se faz sentir, ou será que ela prevê que  estou mais frágil e zás ! Ataca-me, traiçoeira !

Ultimamente é um pouco mais subtil, mas nunca deixa de ser incómoda, talvez porque eu já tenha aprendido a lidar com ela, ou será porque estamos cansadas desta batalha inglória.

Mesmo assim,  há dias em que grito e pergunto:

-Porquê a mim ?

Maldita Enxaqueca !!!

Fê blue bird


~~*~~

NUM MONUMENTO À ASPIRINA -JOÃO CABRAL DE MELO NETO

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

FEITICEIRA

Janluis Torres




Era um lugar igual a tantos outros onde nada acontecia. 
Ou se acontecia não se dizia. 
A velha casa era isolada. 
O quarto ermo e frio.
Apenas se ouvia o barulho forte do vento que rugia.
Entrou nele uma mulher. 
Longos cabelos negros, rosto anguloso, olhos cor de mel, fendados, como os dos felinos. 
O seu corpo esculpido a bisturi.
O seu nome Celina.
A sua paixão, seduzir. 
Tinham-lhe falado na magia daquele lugar e, daquele quarto, onde os amores não aconteciam. 
Veio vê-lo e escolheu-o. 
Mandou-o limpar, seria o seu covil. 
Não tinha dono, era livre. 
Vinha para ali endeusar-se e seduzir.
Nada mais dava e nada mais exigia.
Todos os dias aumentava o seu séquito de admiradores e de inimigos, sedentos do seu poder de mulher livre, selvagem e inacessível.
Quem perscrutasse as imediações, podia ver outros olhos, raivosos, à espera ... 
Naquele dia, juntaram as forças e a maldade e decidiram o destino de Celina.
Não aceitavam que naquela cidade onde nada acontecia, vivesse uma mulher mulher assim, feiticeira.
Frios, calculistas, sedentos do seu sangue de sedutora, incendiaram-lhe a casa.

Vinte anos depois, o quarto continua forrado a cinzas. 
Mal sabem que Celina ...corre livre pela selva.

Fê blue bird

~~*~~

Eivør - Trøllabundin- ( Enfeitiçado)  

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

CHUVA



 Sentada junto à janela, deambulo nas palavras
à procura de inspiração. 
  A música que sempre me acompanha quando escrevo, chega ao fim ,
- silêncio- 
O ecrã do velho portátil, de repente, fica todo negro, 
( está na últimas, coitado )
fico inquieta,
nem o som da chuva miudinha me acalma.
 -a gata sobe para o meu colo-
 Sinto um barulho no estômago,
ainda não tomei o pequeno almoço
mas vou esperar mais um bocadinho.
Agarro no meu inseparável bloco
numa caneta e, começo a escrever mas 
não dá, não consigo me concentrar.
Levanto-me repentinamente,
a cadeira cai
- a gata foge - 
dirijo-me cambaleante para a cozinha.
(a tensão deve-me ter baixado )
O melhor é preparar o pequeno-almoço,
corto o pão para as torradas, preparo o café
( contrariamente ao que dizem, acalma-me )
e, quando me preparo para o saborear,
 o computador dá sinal de vida.
Esqueço o café,
as torradas ficam a espreitar na torradeira,
corro para a sala,
tropeço na cadeira,
- piso a gata -
quando finalmente os meus dedos frenéticos procuram o conforto das teclas...

...  acordo em sobressalto :

 -que pesadelo!-


Fê blue bird

~~*~~

often a bird  - Wim Mertens

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Depus a máscara e vi-me ao espelho.

 — Era a criança de há quantos anos. 

~~*~~

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
 — Era a criança de há quantos anos. 
Não tinha mudado nada... 
É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 
É-se sempre a criança, 
O passado que foi 
A criança. 
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor, 
Assim sem a máscara.
 E volto à personalidade como a um términus de linha. 


 Álvaro de Campos, in "Poemas" Heterónimo de Fernando Pessoa



 E volto à personalidade como
 a um términus de linha. 


OXALÁ


Oxalá, me passe a dor de cabeça, oxalá
Oxalá, o passo não me esmoreça;

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá,
Oxalá, o povo nunca se esqueça;

Oxalá, eu não ande sem cuidado,
Oxalá eu não passe um mau bocado;
Oxalá, eu não faça tudo à pressa,
Oxalá, meu Futuro aconteça

Oxalá, que a vida me corra bem, oxalá
Oxalá, que a tua vida também;

Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
Oxalá, o povo nunca se esqueça;

Oxalá, o tempo passe, hora a hora,
Oxalá, que ninguém se vá embora,
Oxalá, se aproxime o Carnaval,
Oxalá, tudo corra, menos mal.

Madredeus



domingo, 14 de fevereiro de 2021

Dia dos Namorados

In Bed The Kiss by Henri De Toulouse-Lautrec, 1892




Dia dos Namorados 
 

abri a janela para o sol entrar
num sorriso fresco, primaveril
neste dia que pareceu mais de abril
até se ouviram pássaros a cantar…

era suposto a chuva não parar
no que parecia um Inverno de águas mil
mas hoje nesta alegria juvenil
sol e amor andaram a festejar.

 senti-me hoje assim como este dia
perdida na imensidão da alegria
como ao beijar-te amor a vez primeira.

dizem que o dia é dos namorados
mas seja ou não, estamos abraçados
e assim vamos ficar a vida inteira.


Fê blue bird 

 💘

quase que me esquecia de comemorar este dia (:

uma história infantil ...

... ou talvez não.

Era uma vez uma galinha que acabara de chocar uma ninhada de pintainhos.  
Ela era a única galinha do galinheiro porque uma raposa tinha devorado todas as outras.
Por este motivo, sempre que a galinha se ausentava para procurar comida, prevenia os pintainhos para terem cuidado.
Num dia em que a galinha tinha saído para procurar minhocas, apareceu no galinheiro um animal estranho, com orelhas pontiagudas, rabo peludo e focinho comprido.
Um dos pintainhos, que tinha ouvido a descrição que a sua mãe fizera da raposa, alertou logo os outros para se esconderem, porque aquela era, sem dúvida, a malvada da raposa. 
O pobre animal porém, estava sedento e ferido, pedindo ajuda.
Um outro pintainho mais sensível, olhando para o bicho, sentiu que aqueles olhos tristes não podiam pertencer a uma raposa, pois as raposas tinham um olhar astuto como dizia a sua mãe. Com pena do bicho, quis aproximar-se e ajudá-lo, porém o irmão impediu-o, dizendo que era uma raposa. 
Os dois acabaram discutindo cada vez mais alto, correndo o risco de serem localizado pelo animal. Nenhum arredava o pé daquilo que pensava , foi então quando um outro pintainho, teve uma ideia :
- As raposas comem galinhas e, portanto, se ela for mesmo uma raposa e estiver nos enganando não vai resistir a um pintainho e vai devorá-lo. 
Sem hesitar, colocou-se perto do animal. O coitado, nem se mexeu, continuou choroso num canto, gemendo e lambendo as feridas.
 O pintainho condoído perguntou:
- "Quem és tu?"
- "Ah pintainho, ajuda-me ! Sou um pobre cachorro que foi atacado por uma raposa quando tentava defender uma galinha que buscava minhocas ali fora."
Os pintainhos ouvindo isto, correram para ajudar o pobre cão, pois aquele que em principio parecia uma raposa feroz, era na verdade um amigo, que se ferira tentando ajudar a mãe galinha.


Moral da história ? 



Fê blue bird

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

e se...

e se...
... num coração partido, um amor o colasse
 ... numa mão estendida, outra mão agarrasse
 ... num jovem perdido, um futuro brilhasse
... num velho esquecido, um amigo ajudasse
...numa vala imunda, uma flor germinasse
 ... num mundo dividido, uma união brotasse
 ... numa mente agitada, um abraço acalmasse
... num vírus mortal, a humanidade acordasse

e se...
 num cano duma pistola, um pássaro cantasse
.
Fê blue bird



*

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

a Menina do Medo.


 Desafio Literário, sobre o tema " MEDO ", proposto pelo meu amigo Toninho Bira
no seu blogue Mineirinho

*

Menina do Medo, é o teu nome ? 

- Sim. Eu sou a Menina do Medo.

- Porquê, Menina do Medo ? Medo ? Medo de quê ?

- Medo de ser, medo de estar, medo de fazer. Medo de perder... Sabes ? 

- Hmmm, sei... Mas sempre me disseram que, quanto mais medo temos de perder alguma coisa, mais fácil e rapidamente a perdemos. 

- E isso é verdade ? 

- Não sei, diz-me tu ! Tu, que és a Menina do Medo, conta-me: já perdeste uma coisa, por teres tanto medo de ficares sem ela ?

 - (Silêncio.) 
 - (Silêncio.)

 - Eu tinha uma bolinha de sabão. Mas tinha tanto medo que ela rebentasse, que ela fosse embora !... E por ter tanto medo que isso acontecesse, quis protegê-la, quis ficar com ela para mim, quis agarrá-la e toquei-lhe.  Adivinhas o que aconteceu, não adivinhas ? Ela rebentou, acho que até antes de começar a voar para longe...

 - Hmmm... A mim, também já me contaram que o bom das bolinhas de sabão, é que podemos voltar a fazer outra, e outra, e outra; por mais que as bolinhas de sabão rebentem ou voem para longe, há sempre a oportunidade de voltarmos a encontrar outra: basta termos aquilo que lhes dá sustento... 

- Não! Cada bolinha de sabão é única ! E a bolinha que vem a seguir, nunca é igual à anterior... Eu queria aquela: aquela era a minha bolinha de sabão. 

- (Silêncio.) 
- (Cai uma lágrima.) 

- E agora, de que é que tens medo ? 

- Tenho medo, longe da minha bolinha de sabão...

.

Fê blue bird
  


inspirado no livro infantil de Luciene Tognetta 
" A História da Menina e O Medo da Menina"


~~*~~


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

PRIMEIRO BEIJO

Tatyana Ilieva art

~~*~~


a mão que descai o simples gesto
a boca que humedeces, eu não mereço
estar de ti, dos teus lábios, perto assim

aos meus olhos, só teus olhos, pois o resto
deixo de ver, desaparece e até me esqueço
que eles não estão mais a olhar para mim

ia jurar que  fui eu quem deu um passo
quem pegou na tua mão, quem num abraço
declarou o seu amor, te fez sorrir

ia jurar que estou apaixonada
e que por ti me sinto arrebatada
pelo beijo que se torna a repetir

.

Fê blue bird (2012)

~~*~~



  
PRIMEIRO BEIJO 
- Dueto: Valéria Carvalho e Mafalda Veiga |
 Música: Rui Veloso e Letra: Carlos Tê


 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

ONDE ESTÁS ?

Akiko Hoshino art


~~*~~

estás ali, no perfume das flores do jardim que me olham embevecidas,
no canto dos pássaros que cantam para mim melodias que pareciam esquecidas,
nas árvores coloridas por frutos maduros que se oferecem a bocas sequiosas,
nos nenúfares do lago que parecem ainda mais belos que as rosas,
nos cisnes brancos que dançam no lago,
no cão que me olha triste e implora um afago,
no sorriso da menina que corre convencida que os pássaros se deixam agarrar,
no olhar traquinas da moça que só quer brincar.

estás no sol a nascer lá por trás do monte,
na estrela polar que me indica o norte,
na imensidão azul do horizonte,
na lua cheia que irradia luz forte,
naquela nuvem alva de algodão,

estás, hoje e sempre, onde está o meu coração.

.

Fê blue bird



~~*~~

Céline Dion - My Heart Will Go On

~~*~~